A Torre Negra | Grandes expectativas geram grandes decepções

    Idris Elba em A Torre Negra


    As primeiras notícias de que seria feito um filme sobre A Torre Negra, master saga do autor Stephen King eram muito animadoras. Com o anúncio de que os protagonistas seriam os atores premiados e super em alta Idris Elba e Matthew McCounaghey nada poderia dar errado, poderia?

    Idris Elba e Matthew McConaughey em A Torre Negra

    Antes mesmo do lançamento do filme já tínhamos sinal de que a coisa podia desandar: adiamento da data de estreia, demora no lançamento dos materiais de divulgação, necessidade de regravar cenas, curta duração e até mesmo um último trailer que apostava muito mais no cânon do escritor do que nesta obra em particular já deixou a galera com um pé atrás. Mesmo com essa apreensão, o filme conseguiu decepcionar até os mais céticos.

    Pra começo de conversa não é segredo pra ninguém que uma série de oito livros enlatada em um filme de 95 minutos não tinha como dar muito certo, não é mesmo? Se for pra tentar fazer alguma justiça, não é bem uma adaptação dos livros. É meio que uma releitura: o filme se apropria de elementos da obra pra dar vida aos seus personagens e algum sentido pra trama. O resultado? Uma narrativa rasa que ficou no feijão com arroz da jornada do herói, com personagens unilaterais e uma situação de “salvar o mundo” que a gente já está cansado de ver.

    Resumidamente: existe uma Torre Negra que protege todos os universos. O objetivo do vilão Walter (McCounaughey) é destruir a Torre pra deixar os monstros invadirem os mundos. A missão do Pistoleiro Roland (Idris Elba) é proteger a tal da Torre e meio que se vingar do Walter, porque no comecinho do filme ele matou o seu pai. Ah, tem também um guri chamado Jake (Tom Taylor) que é “iluminado” (em uma referência óbvia) e sonha com os dois personagens descritos acima. Para Walter, o menino é uma poderosa arma que pode destruir a Torre e para o Pistoleiro é o cara que ele tem que proteger pra salvar o mundo.

    Idris Elba e Tom Taylor em A Torre Negra

    O que eu me pergunto é: como que fizeram a obra mais autoral e complexa do Stephen King parecer uma ideia tão ruim? Sem exageros, A Torre Negra poderia ter se tornado o próximo Senhor dos Anéis do cinema e caiu no limbo de filmes esquecíveis que eu assistia no Cinema em Casa e nem me lembro direito do título. O roteiro parece qualquer coisa que você tenha assistido antes: não tem fôlego pra te prender, não tem desenvolvimento de personagem pra que a gente entenda as motivações deles além daquilo que a gente já sabe: o cara do mal quer destruir o mundo, o bonzinho precisa salvar e um menino de repente se vê como chave do confronto.

    Mesmo com uma duração bem curta, a edição conseguiu deixar o filme arrastado e ao mesmo tempo apressado, como aqueles segmentos de “cenas do próximo episódio”, com um monte de cenas desconexas que só vão fazer sentido quando você assistir ao todo. O problema é que não há um todo aqui, o filme se encerra nele mesmo. A coisa é tão mal feita que tem até diálogos que parecem ter sido cortados ao meio para que a gente vá para alguma outra situação completamente desconexa.

    Sobre as atuações, é realmente uma pena que o Idris Elba tenha caído neste projeto para o seu primeiro grande blockbuster como protagonista. A atuação dele é boa, mas ele não precisa fazer esforço para isso (já o vimos fazer coisa melhor em Luther). Sem contar que ele tem o azar de pegar um roteiro com uma construção péssima de personagem, falas fraquíssimas e pouco espaço para ele dar um pouco mais do gosto do seu potencial dramático. O seu ar cansado e cético dá mais a entender de que foi o Elba que desistiu do filme e não o Pistoleiro que está abatido com a morte do pai.

    Idris Elba em A Torre Negra

    Em relação ao Matthew McCounaghey é tudo tão errado que é seguro dizer que o ator retrocedeu uns cinco anos na carreira e voltou àquela atuação medíocre e canastrona que ele costumava entregar antes das surpreendentes performances em True Detective e Clube de Compras Dallas. O cara voltou a fazer aquele trabalho horroroso de forçar uma voz e um sotaque pra tentar disfarçar que ele está interpretando a si próprio.

    Matthew McConaughey em A Torre Negra

    Mas em um blockbuster com história e atuações fracas a gente pode esperar que pelo menos a galera da direção de arte e dos efeitos visuais tenham caprichado, não? É, não. A construção de universos é quase que inexistente, não há nada que me diga que o Mundo Médio não se passa na terra, é só um desertão. Os efeitos especiais, que poderiam ser um trunfo da produção, parecem ter saído de um filme de 15 anos atrás. Nem os efeitos da devastação que a destruição da Torre poderia causar são bons: é só um céu vermelhão e deu. A gente já viu coisa melhor em filmes dos X-Men.

    É uma pena que um projeto com tanto potencial, com um protagonista que, sozinho, tem um baita carisma tenha caído nas mãos de um diretor e um estúdio que conduziram as coisas tão mal. Parece que a gente vai ter que esperar alguns anos pra que alguém tenha a coragem e a competência de transformar os livros na franquia que eles realmente merecem. Mas não deixa de ser um desperdício de potencial em um enlatadão sem sabor.

    Nota:

    Imagens: © 2016 – Sony Pictures Entertainment

    Trailer de A Torre Negra

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