Boyhood e a sensibilidade com o ordinário

A sua vida daria um filme? De que tipo? Esta pergunta é bem frequente naqueles testes de personalidade do Buzzfeed que dizem pouco, mas divertem bastante. Por mais que a gente ache que a nossa vida é super interessante, ela dificilmente poderia ser vendida para um estúdio e transformada em roteiro de Hollywood (a não ser que você tenha passado 127 horas no Grand Canyon e amputado o próprio braço pra escapar, por exemplo). E é esse aparente marasmo que dá a tônica de Boyhood, um dos queridinhos para o Oscar deste ano.

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Confesso que quando eu vi que o filme teria quase 3h de duração me assustei um pouco, mas no fim das contas, eu estava tão curiosa pela evolução das personagens (o ponto de vista é o do menino, mas temos muita gente interessante nesta família), que a ausência de clímax nem foi um problema. Aliás, este pode ser o principal problema de quem não gostou e/ou não entendeu a beleza de Boyhood: é tudo muito linear.

Apesar de ser uma obra de ficção, o fato de ter sido filmado “em tempo real” dá um toque quase documental ao filme. Como diz o Jack Black “não foi um filme que levou 12 anos pra ser feito, baixem a bola. Foi um filme que levou 12 semanas, distribuídas ao longo de 12 anos”. Só por isso já podemos dar crédito ao diretor, que apostou em um ator mirim e dedicou todo este tempo ao projeto sem a certeza de que as pessoas iriam entender.

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Fora isso, eu considero o roteiro talvez a parte mais ousada de Boyhood. Como eu falei, não tem clímax. Temos lá uma cena ou outra com conflitos mais latentes, que não se encontram logo antes do final, como na maioria dos filmes. A beleza do foco no ordinário é que nós temos a oportunidade de ver a nossa vida passar diante dos nossos olhos. Na tela. Na família de Mason. Como espectadores, damos um significado diferente aos conflitos dos adultos, às experiências e ao efeito que todos esses episódios podem causar depois que a pessoa já vira adulta. Mas todos nós passamos por isso e nem percebemos.

Um dos pontos fortes do filme está na atuação de Patricia Arquette, que faz a mãe de Mason. Ela é uma das principais responsáveis pelas mudanças nas vidas dos filhos e, entre erros e acertos, nunca tem a sua participação valorizada, como muitas vezes fazemos com as nossas mães. Outro é a edição, que eu achei divertidíssima. Adorei tentar adivinhar os anos com base nas músicas, modas e demais elementos da cultura pop de cada época do filme.

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Enquanto a maioria dos roteiros de Hollywood foca em um episódio ao invés dos próprios personagens, Boyhood vai no sentido contrário. Essa não é a história de como alguém foi afetado pelo 11 de setembro ou pelos sonhos ceifados no Titanic. É sobre pessoas normais, inseridas num contexto normal ao longo de 12 anos. É sobre como um menino ingressou na adolescência e precisou se adaptar para a fase adulta. É sobre todos nós, de certa forma.

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