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A pé ele não vai longe | Uma comovente jornada de aceitação

A pé ele não vai longe

 

Quando eu li o título de A pé ele não vai longe, sabendo que se trataria de um filme sobre o cartunista John Callahan, que ficou tetraplégico após um acidente, eu imaginei que se trataria de uma comédia de humor negro. Mas o que o filme entrega é uma comovente jornada de aceitação do protagonista após sua vida atingir o fundo do poço.

A narrativa não-linear nos apresenta um John Callahan (Joaquin Phoenix) compartilhando um relato do seu último dia andando a um grupo fechado de membros dos Alcoólicos Anônimos (AA). Segundo ele, naquele dia ele não estava de ressaca porque ainda estava bêbado. Por meio de episódios bem específicos (fingir que estava sóbrio na loja de bebidas, beber escondido atrás do carro e abordar uma mulher na praia), o filme já dá uma ideia bem clara do estilo de vida que Callahan costumava levar.

A pé ele não vai longe

Mas após conhecer Dexter (Jack Black) em uma festa a coisa ficou ainda mais intensa, com uma noitada regada a muito álcool e vômitos em locais inconvenientes. O resultado foi um acidente de carro no fusca azul (POW!) de John, que fez com que ele perdesse controle de seu corpo do pescoço para baixo.

Muitos filmes tratam este tipo de experiência como aquele despertar que vai fazer o protagonista decadente a mudar sua visão de mundo e se endireitar, não é mesmo? Pode até ser, mas o roteiro de Gus Van Sant, que também dirige o filme, mostra que esta jornada não acontece da noite pro dia, rendendo a Callahan muitos anos de reaprender a usar o corpo e, claro, muita terapia para reaprender a usar a mente e a lidar com suas emoções.

 


 

Há um grande ressentimento em Callahan pelo fato de ter sido abandonado pela mãe e boa parte de suas frustrações ele atribui a este fato, repetindo incansavelmente o discurso de “tem três coisas que eu sei sobre a minha mãe”, que disfarça de humor uma mágoa muito grande. O uso do humor como um mecanismo de defesa é apontado pelo seu mentor no AA, Donnie (Jonah Hill), que interpreta um papel decisivo na vida de John.

A trama é composta de vários pequenos momentos que podem parecer não ter muito significado, mas ajudam a construir a jornada de A pé ele não vai longe. Até as supostamente cenas aleatórias de ele rodando aceleradamente as ruas de Portland com sua cadeira de rodas podem parecer quase que um alívio cômico em alguns momentos, mas demonstram quase que um desejo do personagem em acabar com a própria vida.

A pé ele não vai longe

Com uma personalidade transgressora, que será retratada em seus cartoons, John mostra uma evolução interessante de um personagem que passou a vida se vitimizando (principalmente após o acidente), mas que, com muita dificuldade, aprende a se desculpar e a se perdoar pela sua vida.

O filme tenta atribuir esta mudança a alguns personagens que cruzam o caminho dele na recuperação. A primeira deles na forma da terapeuta sueca Annu (Rooney Mara), que acaba evoluindo para um interesse amoroso. Mas ninguém é tão importante neste caminho do que Donnie, um hippie homossexual e milionário que ajuda pessoas no AA para se redimir quanto aos seus próprios vícios do passado. Ele é o único que consegue fazer os questionamentos certos a John, fazendo com que os diálogos destes personagens sejam os momentos mais altos do filme.

A pé ele não vai longe

O ponto forte de Ele não vai longe a pé é a atuação de Joaquin Phoenix, que varia entre os momentos de agressividade e a consciência das frustrações de Callahan. Em seguida temos um quase irreconhecível Jonah Hill que continua a sua trajetória em querer ser levado a sério como ator. O filme não dá motivos para pensarmos o contrário.

Van Sant aposta em uma direção quase intimista, com bastante enquadramento fechado nos personagens, valorizando as atuações, e também com planos mais abertos em que sempre tem algo interessante acontecendo no fundo, seja um casal gay num parque como um grupo de skatistas rodando enquanto John passa com sua cadeira em primeiro plano.

A pé ele não vai longe

A narrativa é um tanto intrincada e, como já mencionei, com momentos que parecem não ter muito significado para a trama. Mas é aí que se encontra a riqueza e a verdadeira sensibilidade do roteiro. Ele escancara situações simples que agora são verdadeiros desafios para John, como alcançar e conseguir abrir uma garrafa de bebidas. Quando está na etapa de se desculpar, John vai até uma loja de roupas de onde ele roubou um item há 10 anos e quer se redimir. Este tipo de detalhe é o que deixa a personalidade de Callahan ainda mais rica e mostra a evolução dele ao longo dos anos após o acidente.

Em determinado momento de uma reunião do AA, um personagem diz que “talvez a vida não precise ter tanto significado como nós imaginamos que ela deva ter”, o que reflete muito bem as escolhas do diretor e do roteiro. Apesar da história de superação, Gus Van Sant rebate o melodrama e o choro barato para entregar algo mais pé no chão e mais próximo da realidade de muitas pessoas.

Nota de A pé ele não vai longe:

Imagens: Scott Patrick Green

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