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As Brumas de Avalon | Quando a adaptação muda o propósito do livro

As Brumas de Avalon

 

Todos nós sabemos que adaptações de livros para filmes inevitavelmente tomam algumas liberdades narrativas por diversos motivos: encaixar-se melhor no formato, ser mais acessível ao público e, claro, fazer com que tudo caiba em poucas horas de produção. No entanto, em As Brumas de Avalon o propósito da história é praticamente subvertido.

No romance de Marion Zimmer Bradley, publicado em 1982, a autora reconta a lenda de Rei Artur do ponto de vista de mulheres próximas a ele: sua irmã Morgana (Julianna Marguiles) e suas tias Viviane (Anjelica Huston) e Morgause (Joan Allen). A família pertence a uma antiga linhagem de sacerdotisas de Avalon, onde a religião pagã que cultua A Deusa é a que prevalece sobre toda a Britânia.

As Brumas de Avalon

Todos os personagens que nós conhecemos estão lá: Artur (Edward Atterton), Guinevere (Samantha Mathis), Lancelot (Michael Vartan) e Merlin (Michael Byrne), só que a história segue um curso um tanto diferente. Praticamente todos os eventos relacionados à ascensão de Artur e de seu papel na história da Britânia são colocados em movimento por Viviane, também conhecida como a Senhora do Lago e a Grande Sacerdotisa de Avalon.

Na história que nós conhecemos Artur é o rei cristão que uniu a Britânia contra os Saxões, enquanto em As Brumas de Avalon ele é um rei pagão (afinal, cês viram quem era parente dele, né?) que se casa com a cristã Guinevere e, aos poucos, cede ao cristianismo para unir o país – embora ele tenha jurado de pé junto que não trairia a religião da Deusa.

 

 

A gente sabe que adaptar quase mil páginas de um livro pra um filme de 3h não é uma tarefa lá muito fácil. Obviamente a história é esquartejada e muitos personagens e acontecimentos são deixados de fora pra caber no tempo do longa (que chegou a ser exibido como minissérie). Mas o que mais irrita na adaptação de Gavin Scott para a TV é que o propósito da história foi bem deturpado.

Se no livro o foco é na substituição da religião da Britânia de uma forma nada pacífica e gradativa, no filme o roteirista decidiu fazer deste “mais um filme sobre o Rei Artur”. Avalon é reduzida a uma projeção bem pobre de chroma-key e a religião nada mais é do que alguns truques de magia. Enquanto isso, as desavenças entre Artur e seu filho incestuoso Mordred (Hans Matheson) ganham mais espaço, assim como a própria invasão dos saxões. Se era pra fazer só mais um filme sobre Rei Artur, Távola Redonda e afins não precisava pegar emprestado toda a mitologia revisitada por Marion Zimmer Bradley.

Além disso, não dá nem pra defender muito a parte técnica do filme. Embora Julianna Marguiles se esforce para corresponder ao roteiro que foi dado a ela, não dá pra relacionar a atuação de ninguém ali aos respectivos personagens do livro (desculpa Anjelica Huston). Morgause, por exemplo, perde todas as camadas de sua personagem e é reduzida à bruxa má que tem inveja de suas irmãs e quer ferrar com todo mundo.

Embora o figurino possa ter alguns pontos fortes, não dá pra dizer que o design de produção é dos melhores. Pra começar vamos problematizar o fato da locação escolhida ter sido a cidade de Praga. Não precisa ser muito expert em Geografia ou História pra saber que a arquitetura medieval da República Tcheca e da Grã-Bretanha são bem diferentes. Adicione isso a efeitos especiais bem risíveis em que as tais brumas são o resultado de máquinas de fumaça e não dá pra defender muita coisa no filme. Ah! E não vem me dizer que pelo fato do filme ser de 2001 temos que ser compreensivos. No mesmo ano foram lançados os primeiros filmes de Harry Potter e de Senhor dos Anéis.

Veja aqui o nosso resumo dos filmes de Harry Potter

 

– Atenção! O parágrafo a seguir contém spoilers – 

 

Pra fechar, a Morgana do livro ficaria horrorizada com o seu final no filme. Enquanto no livro a sacerdotisa vê sua religião ser mesclada às crenças cristãs (ela vê a Deusa na estátua de Santa Brígida, o graal é o cálice do corpo de Cristo e por aí vai…), no livro ela vê a estátua da Virgem Maria e encontra conforto num convento cristão. É.
 

– Fim do spoiler –

 

Enfim, enquanto o filme poderia ter mantido o tom de questionamento quanto a cristianismo e paganismo e focado nessa transição histórica, decidiu fazer uma versão digerida e politicamente correta da lenda, aproximando-se daquilo que todos nós estamos cansados de ver. No final das contas, parece mais um novelão das intrigas de família da parentada de Artur.

As Brumas de Avalon
 

O que ver primeiro?

Olha, eu vi o filme lá em 2001 sem ter lido o livro. E, embora tenha achado exaustivamente longo, parecia uma história medieval interessante. Mais de 10 anos depois fui ler os livros e achei a história sensacional, só que não me lembrava direito do filme. Quando decidi revê-lo é que todas as falhas e preguiças narrativas ficaram mais evidentes. Então, a minha recomendação é que você escolha apenas um dos dois: o filme ou o livro. Não dá pra ser feliz depois de comparar os dois.
 

Qual é melhor?

O livro! A história é um tanto extensa sim (li uma edição da Imago com quatro volumes), mas com uma construção de mundo fantástica e um desenvolvimento bem caprichado de personagens, que possuem inúmeras camadas. O filme só parece extenso sem te acrescentar nada. Se puder, leia apenas o livro e esqueça que este filme já foi feito.

 

Nota de As Brumas de Avalon:

Imagens:  gavinscott.co / justwatch.com / Youtube

 

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