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As Sufragistas | Por que o mundo precisa do feminismo

As sufragistas


 

Filmes sobre conquistas do passado costumam chocar e comover o público ao mostrar “como os tempos eram difíceis” e como sentimentos de esperança causaram a revolução em questão. Mas o que diferencia As Sufragistas é mostrar um fragmento de luta histórica para apontar o quanto a situação não mudou tanto assim.

Na Londres de 1912 um grupo de mulheres defende o direito ao voto feminino e, para chamar a atenção à causa, praticam atos de vandalismo, como quebrar janelas e vitrines. Maud Watts (Carey Mulligan) é uma mulher da classe operária que trabalha em uma lavanderia desde pequena que não se considera uma sufragista, mas por lealdade a uma amiga se vê no epicentro da causa.

 

 

Embora ela não se considere uma militante da causa, um depoimento seu feito meio que por acaso ao Parlamento faz com que ela perceba todas as injustiças que rodeiam a sua vida: ela nasceu e cresceu na lavanderia porque sua mãe já trabalhava lá (e faleceu por acidente de trabalho quando ela tinha apenas 4 anos), vê mulheres trabalharem 1/3 a mais do que os homens e ainda assim receberem salário menor, além de terem seus corpos castigados pelo trabalho manual e pelos gases tóxicos do local. Pra fechar, mulheres também não têm direito sobre seus filhos. Por isso, ela nem entendia como somente a conquista do voto poderia ajudá-la. Soa familiar?

A se envolver com o movimento, Maud vê sua vida se despedaçar pelas constantes prisões, a retaliação brutal da polícia e a falta de empatia do marido (que a coloca pra fora de casa e faz coisa muito pior depois). Por outro lado, ela encontra apoio no grupo, através de figuras como a farmacêutica Edith (Helena Bonham-Carter) e a colega Violet (Anne-Marie Duff). A líder do movimento, Sra. Pankhurst (Meryl Streep) aparece em um raro momento, mostrando que o foco do filme não está nas lideranças, e sim, nas pessoas reais que deram corpo à causa.

 


 

O que chama a atenção no filme é mostrar justamente como o movimento sufragista era levantado por mulheres de todas as classes: desde as de famílias ricas, às que receberam educação superior e aquelas que são da classe operária. Embora as injustiças relacionadas a gênero afetem mulheres de todos os níveis sociais, o filme não se silencia na hora de mostrar que quem mais sofria com as represálias eram as classes mais baixas, já que estas mulheres não contavam com uma família que pudesse pagar a sua fiança.

Outro fato legal é a direção de uma mulher: Sarah Gavron. No filme ela não se utiliza de muitas firulas visuais na direção, é tudo bem conservador mas serve para manter a atenção na história que está sendo contada. As brutalidades que ela escolhe para mostrar na tela são até bem sutis e algumas agressões ficam apenas nas entrelinhas, como muitas vezes acontece no mundo real (quem é mulher sabe do que eu estou falando). A ambientação de época é bem sóbria, mas feita com muito capricho. Figurinos e maquiagem deixam bem claro o papel de cada personagem no contexto histórico.

Mas o principal trunfo do filme certamente está em sua protagonista e na forte interpretação de Carey Mulligan. O tom do filme é ditado por ela em uma performance que encontra força nas sutilezas e na timidez da própria personagem. Em alguns momentos é utilizada a frase “atos, não palavras” e isso define bem o caráter de Maud: a gente nunca sabe muito bem o que está passando pela cabeça dela até a sua próxima ação. Não entendi por que ela não foi indicada a nada maior por este filme.

 

As sufragistas

O filme construiu bem o clímax (que eu não vou dizer qual é porque é importante ser surpreendido por ele) e não entrega um final feliz. Até porque essa história não tem final, né? Uma das coisas mais perturbadoras é ver aqueles caracteres finais mostrando os anos em que as mulheres conquistaram o direito ao voto em diversos países do mundo e se revoltar em como esta é uma história recente até em países que se julgam mais esclarecidos. Na Suíça, por exemplo, mulheres não votavam até a década de 1970. No Brasil foi até os anos 1950, o que também não é nenhum motivo de orgulho pra gente.

Em tempos de #MeToo e #TimesUp, em que até as mulheres que, assim como Maud, “não se consideram feministas”, estão acordando para as disparidades de gênero, o filme é uma lembrança pertinente e dolorosa não do que foi conquistado, mas das injustiças que ainda rodeiam as mulheres mesmo um século depois dos eventos do filme. Um hino pra quem entende a necessidade do feminismo e talvez ainda mais essencial ainda pra quem insiste em vomitar por aí que feminismo não é necessário.

Nota:

 

Trailer de As sufragistas

Imagens: © 2015 – Focus Features

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