Death Note | Não funciona como adaptação e nem como filme

    Nat Wolff e Willem Dafoe em Death Note

    Quando se fala em adaptações de livros ou quadrinhos para as telonas existem as pessoas que defendem a transposição fiel do material e há aquelas que entendem que alguns ajustes são necessários na mudança de formato. Mas emburrecer uma história e mudar completamente a essência dos personagens não é aceitável sob nenhum ponto de vista. Este é o caso de Death Note.

    Cena de Death Note

    Caso alguém ainda não saiba, o filme é uma adaptação do mangá, que rendeu anime e muitos outros materiais lá no Japão. Ao ser trazido para o ocidente, o filme já tinha recebido críticas de whitewashing por não utilizar um elenco asiático. O objetivo do post não é discutir isso, o fato é que Death Note não funciona nem como adaptação e nem como filme sozinho.

    Resumidamente, o filme conta a história de Light Turner (Nat Wolff), um adolescente que encontra um caderno que mata as pessoas cujo nome seja escrito nas suas páginas. As regras do uso do caderno são explicadas pelo Ryuk (Willem Dafoe), uma espécie de deus da morte que deixou o caderno cair no colo de Light. Ele utiliza o caderno para matar trombadinhas da escola e alguns criminosos que aparecem na TV e conta a sua nova namoradinha Mia (Margaret Qualley), que ajuda na matança através do caderno.

    Nat Wolff e Willem Dafoe em Death Note

    Em pouco tempo, eles começam a ser caçados pela polícia (onde o pai de Light trabalha), que conta com a ajuda de um consultor para grandes casos, conhecido apenas por L (Lakeith Stanfield). No mangá é aí que a coisa fica interessante, no filme não.

    Pra começo de conversa eu não sou fã de mangás, mas li o original. Tentei assistir o anime na Netflix mas o estilo da edição realmente não é pra mim (mas reconheço que o material ali é bom pra quem gosta do gênero). O que mais irrita no filme de Death Note é uma descaracterização descarada de personagens, que são apresentados de forma absolutamente simplória. No original, a gente sabe por que o Light é o melhor da turma e um filho exemplar e até compreende suas motivações para utilizar o caderno “para o bem”. No filme ele é apenas um emo com gosto questionável de penteado e zero carisma. O Light original é arrogante, este é apenas chato.

    A Mia, coitada, foi talvez a que mais sofreu com a transposição. No original ela é uma espécie de celebridade que também tem o seu próprio Death Note e é descaradamente manipulada pelo Light para que ele se dê bem na história. No filme ela só parece uma adolescente meio psicopata que quer todo o poder pra ela. Errou feio, errou rude.

    Margaret Qualley em Death Note

    Já que falamos na Mia, vou levantar uma questão aqui: cadê as outras mulheres da história? Cadê a irmã do Light? Por que tiveram que inventar uma morte pra mãe dele? Cadê aquela outra investigadora do FBI? E por que a Mia foi transformada em uma espécie de vilã? Qual o problema que os roteiristas e o diretor têm com mulheres?

    Voltando aos personagens, dois que ainda conseguimos salvar um pouco são o Ryuk e o L, mas bem pouco. O Ryuk perdeu todo o senso de zoeira do original e ficou apenas assustador. O L teve a sorte de ser interpretado pelo Lakeith Stanfield, que é um bom ator, mas foi muito mal dirigido no personagem.

    Lakeith Stanfield em Death Note

    O que mais dá pena é ver que mudaram completamente o propósito da história. Death Note é sobre uma corrida de caça e rato entre Light e L, dois jovens brilhantemente inteligentes, que ficam sempre buscando estar à frente de seu oponente na perseguição. É uma história policial. No filme, o diretor Adam Wingard transformou a trama em um filme de terror de quinta categoria que apela para o gore e mortes bizarras ao estilo de Premonição.

    Mas se a pessoa não é fã dos mangás, nunca viu o anime e não conhece a história, o filme continua sendo uma decepção. O elenco é fraco, a direção é manjada e a coisa não funciona nem pra terror e nem pra policial. Falta ritmo, falta suspense e falta inteligência. Mesmo com a curta duração e os acontecimentos apressados, parece que o filme não acaba nunca.

    A lição que fica aqui é: não mexam no que já é bom. O filme de Death Note subestima não apenas a inteligência de quem é fã, mas do público em geral. Para quem conseguiu se interessar pela história, fique com o anime. Não foi dessa vez que a Netflix me convenceu de que sabe fazer filmes.

    Nota: 

    Imagens: 2017 Netflix

    Trailer de Death Note

    Veja também: Filmes de terror para ver na Netflix


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