Destacamento Blood | Spike Lee entrega caça ao tesouro com choques de realidade

    Destacamento Blood

    Em um ano tão prejudicado pelo fechamento dos cinemas, lançamentos suspensos e produções tão descartáveis no streaming, Destacamento Blood surge como um respiro para os amantes da sétima arte. Embora não seja o trabalho mais genial de Spike Lee, o longa (e põe longa nisso) oferece entretenimento, mas sem perder as alfinetadas políticas tão típicas do cineasta. O filme consegue ser divertido, chocante e mais um dedo em outra ferida provocada pelo racismo, desta vez, no exército.

    O filme acompanha um reencontro de veteranos da Guerra do Vietnã: Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isaiah Whitlock Jr.). Eles retornam ao Vietnã com duas missões: buscar os restos mortais do seu comandante Stormin’ Norman (Chadwick Boseman) e encontrar barras de ouro enterradas por eles nos tempos da Guerra. Não demora muito para que o filho de Paul, David (Jonathan Majors) os encontre para ajudá-los na missão.

    Destacamento Blood

    Só que a tal da reunião/férias/caça ao tesouro acaba se tornando uma jornada emocional para o grupo, que revisita seus traumas, ativa gatilhos de estresse pós-traumático e faz descobertas importantes ao longo da jornada – desde a descoberta de descendentes em solo vietnamita até a revelação de que a única coisa que estes homens têm em comum é, possivelmente, a Guerra. Um dos personagens que mais se destaca neste sentido é Paul, que tem seus fantasmas explorados ao longo da narrativa, como a perda da esposa ainda jovem, a dificuldade de relacionamento com o filho, o fato de ser um fervoroso eleitor do Trump e mais uma que eu vou deixar quieto porque entra no campo dos spoilers.

    Ao mesmo tempo em que trabalha as particularidades do grupo de protagonistas, Spike Lee não se furta de suas críticas, principalmente em relação ao racismo. Com comentários dos personagens e imagens de arquivo tanto da Guerra do Vietnã como das manifestações pelos Direitos Civis, o diretor faz questão de escancarar estas feridas e deixá-las bem abertas para o público. A mudança abrupta de ritmo – de um momento descontraído para cenas de crianças mutiladas, por exemplo – serve não apenas para pegar o espectador de surpresa e aumentar o poder do choque, mas como um lembrete no sentido de que “enquanto você se diverte há pessoas morrendo e sofrendo”. Bem ao estilo de Spike Lee e isso é provavelmente seu maior trunfo em Destacamento Blood.

    Cena de Destacamento Blood

    Afinal, vale a pena assistir Destacamento  Blood?

    Quanto mais nos acostumamos com os conteúdos descartáveis do streaming e de uma rotina dividida em blocos de atenção cada vez menores, parece ser um alto investimento dedicar 2h34 a um filme. É longo sim e Lee talvez pudesse ter economizado uma meia hora ali em alguns subplots que não contribuíram tanto assim para a trama. Confesso que algumas sequências de dificuldades pareciam só esfriar um clímax que estava se construindo, deixando-o um pouco mais fraco do que um filme como este merecia. O desfecho pareceu um tanto apressado no final das contas – ainda que carregado de uma mensagem importantíssima que nem precisaria ter sido verbalizada: o horror da guerra é que ela nunca acaba de verdade.

    Por outro lado, há muito mais dos personagens que eu gostaria de conhecer. Sei que quando se trabalha com um grupo tão grande de protagonistas (sim, cinco é uma multidão neste caso) é difícil fazer justiça à história de todos, mas ainda assim eu queria saber um pouco mais da relação de Otis com Tiên (Y. Lan), da carreira de Eddie e da vida de Melvin – que às vezes parecia estar ali só pelo alívio cômico. O confrontamento moral dos quatro sobre o que fazer com o ouro é outra conversa que merecia um pouco mais de atenção. É o tipo de história e de combo de personagens que renderiam tranquilamente uma minissérie.

    Filme de Spike Lee na Netflix

    Apesar de Paul ser o personagem mais trabalhado pelo roteiro, ainda acho que houve uma falta de cuidado em expor todas as suas camadas. Parece que quiseram resumir tudo ao fato de que: eleitor do Trump = mau de início ao fim, loucão, só serve pra plantar treta e trai quem o ajuda. É possível que na construção do personagem existissem muitos outros elementos que justificassem o comportamento de Paul (alguns são pincelados na trama), mas ainda me pareceu um pouco de descuido. Vindo de um cineasta que tem uma missão tão clara de combater estereótipos, eu esperava um pouco mais.

    Mas a sagacidade de Lee ainda se faz presente na dinâmica propositalmente caótica do roteiro e em uma edição com transições tão certeiras entre presente x passado e ficção x realidade. O Oscar de Montagem deve vir ou, no mínimo, receber uma indicação. A trilha sonora repleta de Marvin Gaye dá o tom da época e da situação vivida, além de uma ótima inserção sarcástica de A Cavalgada das Valquírias de Richard Wagner – ao mesmo tempo em que evoca a temática de Apocalypse Now, insere o trabalho de um compositor que era racista, antissemita e admirado por Hitler.

    Flashback dos atores de Destacamento Blood

    Enquanto uns dizem que Spike Lee deu sorte de seu filme ser lançado em meio a tantos protestos pelo fim do racismo ao redor do mundo, eu acredito que a sua mensagem com Destacamento Blood é bem mais atemporal: aponta para a desigualdade enfrentada pelos negros não só no exército, mas para os fatores que levam a esta desigualdade. É um filme relevante e necessário não só em meio à onda de protestos de hoje, mas para qualquer momento, para que estas feridas nunca sejam esquecidas – até mesmo enquanto estamos apenas nos divertindo com um filme na Netflix.

    Nota:

    Imagens: © Netflix

     


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