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Green Book: O guia | Grata surpresa na corrida do Oscar

Green Book: O guia


 

Filmes sobre racismo sempre rodearam as premiações do Oscar nos últimos 20 anos. Neste ano, uma das produções que formam a lista é Green Book: O guia, que, mesmo de uma forma mais leve, tem algo a dizer sobre o tema.

Inspirado em uma história real, Green Book: O guia fala sobre a improvável amizade entre um ítalo-americano bronco que um afro-americano culto e pianista durante uma turnê no sul do país na década de 1960. Ou seja, tempo e local com forte segregação racial nas mais diferentes situações.

Green Book: O guia

O nome do filme, para quem não sabe, refere-se a um guia para motoristas negros “não se incomodarem”, listando hotéis em que eles poderiam se hospedar. Mesmo com a dinâmica reversa (o motorista aqui é branco), esta segregação se mostra não apenas como um inconveniente, mas como uma forma verdadeiramente desrespeitosa de como os negros eram tratados. Algo que hoje soa óbvio para nós, mas que para os homens brancos daquela época (e para alguns desta) ainda era encarado com certa naturalidade.

E é esta a jornada que Tony “Lip” Vallelonga (Viggo Mortensen) encara com seu chefe Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), o pianista em questão. Logo de cara ficam evidentes as discrepâncias culturais e econômicas dos dois. Mas, mesmo trabalhando como motorista, Tony tem uma espécie de orgulho ferido por trabalhar para um negro, evidenciado quando ele diz que não trabalha para Shirley, mas sim para a gravadora. É este tipo de atitude que a convivência da turnê irá desconstruir em Tony.

 


 

O filme se divide em duas dinâmicas: construir a relação entre Tony e Dr. Shirley e abordar a questão do racismo, ainda que de uma forma bem caricata. É um daqueles filmes que você é capaz de prever para onde vai e qual vai ser a moral da história, mas nem por isso se torna menos agradável de assistir. Há dois elementos que considero cruciais para que o filme consiga se sobressair, mesmo sob o risco de parecer superficial: o roteiro e o excelente trabalho dos atores principais.

Sim, precisamos falar deste roteiro que, por um lado, recebe tantas críticas por sua superficialidade mas que, por outro, acabou sendo premiado. O propósito do feel good movie é justamente trazer algo mais leve às plateias e é por isso que você não vai levar nenhum soco no estômago com Green Book: O guia, no máximo vai levar um tapinha na mão enquanto se diverte. A leveza garante fluidez à história, ajudada por diálogos simpáticos que geram empatia pelos protagonistas. Pra se ter uma ideia, é um dos raros casos de filme com mais de 2h (mais precisamente 2h10) que eu mal senti passar. E um roteiro que consegue manter o público envolvido do início ao fim tem sim seus méritos.

Green Book: O guia

Mas o que realmente vende Green Book: O guia é a dinâmica entre Viggo Mortensen e Mahershala Ali. O interessante aqui é que os dois utilizam duas abordagens bem diferentes para nos “venderem” seus personagens. Mortensen é expositivo e investe seu carisma no bronco que terá algum tipo de redenção. Já Mahershala Ali entrega o seu personagem nos detalhes: é a gramática correta, os olhares quase horrorizados para algumas atitudes do motorista e aquele sentimento de não ser aceito pelos brancos e nem pelos negros.

 

A abordagem do racismo em Green Book: O guia

O filme tem recebido algumas críticas por ser uma história de redenção de um homem branco sobre suas atitudes racistas, supostamente tirando o foco do que realmente importa. Eu entendo quem gostaria de uma abordagem um pouco mais incisiva sobre este assunto, afinal, parece mesmo um daqueles filmes que mostra que “nem todos os homens brancos são maus”.

Green Book: O guia

No entanto, eu discordo que exista uma fórmula certa para tratar este assunto. Prova disso são os filmes Estrelas além do tempo e Histórias cruzadas, igualmente lembrados pela Academia e que também tratam o assunto de uma forma um pouco mais leve. Nem tudo precisa ser 12 anos de escravidão. Quem prefere algo mais soco no estômago também está representado neste ano por Infiltrado na Klan.

 

O veredito de Green Book: O guia

Não é pelo fato de ter sido coescrito e dirigido por Peter Farrelly que eu vou pegar leve com o filme, mas Green Book: O guia é uma grata surpresa nesta temporada de premiações. Não é o tipo de filme que vai mudar a sua vida ou figurar em listas de melhores produções de todos os tempos, mas é aquele que você provavelmente assistirá mais vezes, seja para passar o tempo ou esvaziar a cabeça depois de um dia pesado.

Nota:

Imagens: Patti Perret – © 2018 Universal Studios

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