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Lazzaro Felice | Instigante neorrealismo italiano na Netflix

Melhores filmes de 2018: Lazzaro Felice

 

Uma das escolas de cinema mais populares da Itália foi o neorrealismo, de onde Lazzaro Felice pega emprestados boa parte de seus elementos, acrescentando à mistura uma certa fantasia e alfinetadas de crítica social.

A primeira metade da produção escrita e dirigida por Alice Rohrwacher foca num grupo de camponeses que mora e trabalha no vilarejo de Inviolata. Não é muito claro onde exatamente fica esta vila ou em que época o filme se ambienta, mas é seguro deduzir que estamos falando de algo ambientado no século 19.

Lazzaro Felice

Uma grande família que trabalha junta no campo, mais ou menos como as histórias que conhecemos dos colonos italianos aqui no Brasil, não tem muita distinção hierárquica: todos trabalham, inclusive idosos e crianças. Mas tem alguém que sempre herda aquelas atividades que ninguém quer fazer. Estamos falando de Lazzaro (Adriano Tardiolo), um jovem de aparência angelical com uma visível bondade e inocência que levam os demais a sempre tirarem proveito dele.

A história sai da mera contemplação do trabalho quando a família da Marquesa Alfonsina de Luna (Nicoletta Braschi) vai para a propriedade da família em Inviolata. Aos poucos o espectador é inserido a alguns tipos de modernidades que o leva a questionar a verdadeira ambientação daquele cenário. São sinais sutis, como um carro ali, um walkman e um celular que nos levam a deduzir que a história se passa em algum momento nos anos 1980 ou começo dos 1990.

 

 

Ao mesmo tempo, o filho da Marquesa, Tancredi (Luca Chikovani) se aproxima de Lazzaro, mas não tanto como amigo, talvez quase como um animal de estimação. Ele bola um plano para fingir seu sequestro e tentar conseguir o dinheiro da recompensa com sua mãe. O plano não dá certo, mas faz com que sua irmã Antonia (Agnese Graziani) ligue para a polícia, o que muda o rumo da história para todos os habitantes de Inviolata.

 

[Os próximos parágrafos terão spoilers]

A polícia descobre que a Marquesa mantinha em Inviolata um sistema quase feudal, em que os camponeses não eram pagos, algo considerado ilegal há muito tempo na Itália. O motivo para os moradores não saberem isso é porque na década de 1970 Inviolata ficou isolada após uma enchente (o próprio nome da vila é uma ironia). Com isso, todos os camponeses são levados dali com exceção de Lazzaro, que caiu de um penhasco em uma cena de tirar o fôlego.

Lazzaro Felice

Não é claro quanto tempo se passa, mas a narrativa de uma fábula entre um santo e um lobo dá a pista de que algum elemento místico entrará na segunda metade da história. Lazzaro acorda ileso de sua queda e descobre a propriedade da Marquesa abandonada, aparentemente há muito tempo. Novamente, Rohrwacher deixa a passagem do tempo sob análise do espectador.

Após ajudar sem querer dois saqueadores a roubarem objetos da casa e em sua incessante busca por Tancredi, Lazzaro se dirige a uma grande cidade e, por obra do destino, se reencontra com sua família de ex-camponeses. Só que agora eles vivem em um tanque à beira dos trilhos de trem e vivem à base de roubos e golpes em pessoas. O retorno de Lazzaro é encarado com espanto por seus familiares, mas isso não os impede de se aproveitarem da boa vontade dele.

[fim dos spoilers]

 

Embora Lazzaro Felice não faça muita questão de explicar seus elementos fantásticos, é possível construir algumas teorias e interpretações com base na fábula narrada sobre o santo e o lobo e na própria história de Santo Lázaro, que dá nome ao protagonista do filme.

Alegorias à parte, o filme faz de forma talvez não tão incisiva, mas ainda assim eficaz, uma forte crítica social à decadência moral das pessoas na Itália (e por que não em muitos outros lugares?). O filme levanta a questão de um ciclo vicioso de exploração que existe nas mais variadas épocas e classes sociais. Tanto a família da Marquesa como a de Lazzaro sempre buscavam uma forma de tirar proveito e explorar um “elo mais fraco”. Isso acontecia em Inviolata e continuou acontecendo na cidade.

Lazzaro Felice

A estética do filme é sensacional, com filmagem em Super 16 e uma fotografia desoladora tanto na Itália rural como no centro urbano, mesmo que por motivos diferentes. A diretora faz uma inteligente escolha ao não dar muitas pistas sobre época e local da ambientação, deixando a sua crítica bem abrangente.

Segundo Alice Rohrwacher, Lazzaro Felice é um filme sobre santidade, mas sem superpoderes ou caráter divino. Para ela, a santidade se encontra na coragem em alguém de permanecer bom, mesmo com todos ao redor tentando prejudicar os outros. As pessoas podem até ter saído da Idade Média, mas elas recriaram uma espécie de Idade Média contemporânea.

Mesmo com um ritmo devagar e elementos fantásticos que possam não agradar facilmente parte do público, Lazzaro Felice é provavelmente uma das produções mais interessantes do ano. Ao mesmo tempo em que critica a sociedade, presta uma bela homenagem ao cinema italiano com uma visão sem esperança da história e dos rumos do país.

Nota de Lazzaro Felice:

Imagens: Tempesta

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