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Nasce uma estrela | Um remake que se mantém atual com toques de Lady Gaga

Nasce uma estrela

 

Sempre que anunciam um remake muita gente se mantém cética. Na maioria das vezes porque o objetivo é fazer mais dinheiros com um mínimo de esforço, aproveitando-se do nome de algo que já foi sucesso no passado e enchendo de estrelas. Este poderia ter sido o destino de Nasce uma estrela, um remake que chega a sua quarta versão nas telonas. Mas o frescor da direção de Bradley Cooper e a surpreendente adição de Lady Gaga ajudam o filme a ter brilho próprio.

A história é bem manjada não apenas por se tratar de um remake, mas já vimos a fórmula em produções recentes como O Artista e La La Land, ambas altamente oscarizadas. Jackson Maine (Bradley Cooper) é uma super estrela musical com problemas com álcool e drogas (por que não?). Aleatoriamente, ele entra num bar drag e se apaixona por Ally (Lady Gaga), que estava se apresentando com uma versão matadora de “La vie em Rose”.

Nasce uma estrela

Os dois passam a noite bebendo, conversando e trocando experiências tanto pessoais como musicais. É uma das partes do filme mais gostosas de assistir porque a cumplicidade e a química entre os protagonistas fica evidente. Você entende por que estas pessoas se importam uma com a outra e compra a ideia deles como um casal, o que é crucial para sustentar o resto da história.

Quando Jackson convida Ally para participar de um de seus shows e canta uma música dela a vida da nossa protagonista vira completamente. Ela passa de garçonete e cantora de bares drag para uma nova sensação musical. O caminho para o sucesso fica pavimentado quando um empresário decide lançá-la ao estrelato.

 


 

Aqui começa a transformação de Ally em uma versão genérica de qualquer cantora pop, mas ainda mais estereotipada, se possível. Onde fica Jackson nessa história? Em uma espiral de autodestruição que afunda sua carreira, alimentada pelos seus vícios e a perda progressiva de audição, que causa pânico no artista, piorando ainda mais a situação.

Os caminhos dele e de Ally, que estavam tão próximos, se tornam cada vez mais distantes ao passo em que ela se torna uma super estrela indicada a Grammys e ele um artista fadado ao esquecimento e sabotando suas únicas oportunidades de se manter no mundo da música. O bizarro é que mesmo com este distanciamento eles permanecem no relacionamento, que se desequilibra com este cenário.

Nasce uma estrela

A direção de Bradley Cooper consegue não apenas dar uma nova roupagem a um filme feito pela quarta vez, mas mantê-lo relevante, com alta qualidade técnica e com um ritmo que consegue sustentar quase que inteiramente as 2h16 de produção. Praticamente tudo está impecável e até quem torceu o nariz para a escalação de Gaga tem que admitir o quão perfeita ela é para o papel. Além da meticulosidade técnica, o filme transmite sentimento, ele envolve o espectador com a história e faz um ótimo trabalho em emocionar o público.

Falando especificamente da parte técnica, a qualidade do som e a forma com que as músicas são inseridas ajudam a compor a história até para aqueles que desprezam musicais. Visualmente, o filme dá outro show: a escolha de cores e enquadramentos ajudam a externar alguns sentimentos referentes aos momentos que os personagens vivem: o calor e o alerta do vermelho e o suspense da luz verde são apenas alguns exemplos. Tem um corte bem no final com enquadramentos parecidos e uma luz vermelha que muda rapidamente de sentido que é de partir o coração (se você já viu o filme deve saber do que eu estou falando).

Nasce uma estrela

Mas onde o filme realmente te ganha é na atuação dos protagonistas. A dinâmica entre os dois é muito convincente, talvez mais até do que Joaquin Phoenix e Reese Witherspoon em Johnny e June. Bradley Cooper te faz esquecer do ator e te convence que ele é Jackson Maine, com alguns trejeitos de cantor country emprestados do Jeff Bridges em Coração Louco. Gaga também surpreende com uma Ally tímida e que, mesmo com o estrelato, não perde sua essência boa. Não chega ao nível de Cooper, na minha opinião, mas convence em um papel que poderia ter sido arruinado na mão de qualquer outra diva pop. Nenhum dos dois rouba a cena um do outro, muito pelo contrário, a história só se torna possível e convincente com o comprometimento dos dois.

Em termos de roteiro não dá pra dizer que tudo é 100% impecável, mas né? Esta fórmula já foi estabelecida há uns 80 anos. Há algumas facilitações narrativas e abordagens um tanto rasas para o problema que eles enfrentavam. Por exemplo, de um dia pro outro ele decorou a música que ela tinha cantado apenas uma vez num estacionamento e a primeira apresentação dos dois juntos foi impecável, mesmo sem ensaio nenhum. Parece que o filme comeu algumas etapas aqui, mas nem vou reclamar muito senão a duração subiria para umas 3h e o filme correria o risco de perder o ritmo.

Nasce uma estrela

Aliás, a única queda de ritmo é justamente quando a produção poderia se aproveitar no lado negativo do relacionamento dos dois. Quando Ally alcança o estrelato e Jackson não consegue lidar com isso a personagem que mais deveria brilhar, Ally, se mostra permissiva tanto com seu empresário como com seu marido. Parece ser uma crítica à forma com que a indústria fonográfica trata suas artistas e até mesmo aos traços de abuso do relacionamento dos dois protagonistas, mas nenhuma das questões é aprofundada. O filme meio que dá um salto para o ato final, meio que não querendo macular a imagem que nós criamos da relação Ally-Jackson.

Ainda é cedo para falar em Oscar porque tem muito filme pra estrear até lá (e tem aquela mania ridícula de só premiar filmes que estreiam às vésperas da premiação). Mas Nasce uma estrela se mostra como um forte candidato a algumas estatuetas. Tem qualidade, um tema que Hollywood costuma adorar e é melhor que muito candidato a Melhor Filme dos últimos anos. Resta saber se o filme seguirá a curva ascendente de Ally ou a espiral de anonimato de Jackson Maine.

Nota de Nasce uma estrela:

Imagens:  © 2018 WARNER BROS. ENTERTAINMENT INC. AND METRO-GOLDWYN-MAYER PICTURES INC.


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