O Diabo de Cada Dia | Quando a leitura é fundamental

    Robert Pattinson em O Diabo de Cada Dia

    O diabo está nos detalhes, como na expectativa de um filme adaptado de um baita livro, com um baita elenco. Este é provavelmente o ponto fraco de O Diabo de Cada Dia, filme da Netflix adaptado do sombrio romance O Mal Nosso de Cada Dia, de Donald Ray Pollock, publicado no Brasil pela DarkSide® Books. Aliás, pra mim o problema já começa com o título da versão brasileira do filme.

    O longa conta diversas histórias ambientadas em cidades no interior de Ohio e da Virgínia Ocidental. Todas com personagens sinistros, apesar de alguns deles serem religiosos fervorosos, e que em algum momento irão se cruzar nas três décadas em que a história se desenrola: 1940, 1950 e 1960.

    Tudo começa com Willard (Bill Skarsgard), um veterano de guerra que se distanciou de Deus depois dos terrores testemunhados por ele em combate. Porém, de volta aos EUA ele se apaixona por uma bondosa garçonete, Charlotte (Haley Bennet) e se casa com ela. Os dois levam uma vida modesta e feliz com seu filho Arvin, até que Charlotte é acometida por uma doença. Willard já havia se reconectado com Deus, mas o desespero da situação da esposa o tornou fanático pela fé, chegando ao ponto de cometer sacrifícios em nome da saúde dela. Resultado: não funcionou. Ela morre, ele se mata e o pequeno Arvin é enviado para viver com a avó.

    O Diabo de Cada Dia Netflix

    O coração da história é o adolescente Arvin (Tom Holland) e sua irmã adotiva Lenora (Eliza Scanlen), que também ficou aos cuidados da avó de Arvin por uma tragédia familiar, que é outra história paralela de O Diabo de Cada Dia. A jovem religiosa é iludida pelo novo pastor local Teagartin (Robert Pattinson), que alicia a jovem a “se abrir para o Senhor”. Sabemos bem o que ela estará abrindo e para qual “senhor”.

    Outra trama que vale a pena destacar aqui é a do casal de serial killers Carl (Jason Clarke) e Sandy (Riley Keough). Esta é provavelmente a mais prejudicada de todas as histórias e acaba servindo apenas como o plot que irá ligar todos os outros. Os dois viajam de carro pelas rodovias e dão carona a jovens homens na estrada. Se você já assistiu A Morte Pede Carona sabe muito bem por que isso é uma péssima ideia e que estes caroneiros nunca chegam ao seu destino.

    Por que ler o livro antes é fundamental

    Vamos lá: são várias histórias, vários personagens e umas três décadas para serem preenchidas. Querer comprimir isso em pouco mais de 2h de filme pode até não ser problema para algumas tramas, mas para esta aqui acabou sendo. Ao longo de 300 páginas Donald Ray Pollock constrói um terror que não é muito expositivo. Ele se debruça em explorar as características nefastas de seus personagens de forma gradativa. Conforme o leitor conhece determinado personagem ele revela mais uma camada da podridão humana. O filme simplesmente não tem tempo de aprofundar isso.

    Robert Pattinson em O Diabo de Cada Dia

    Quem leu O Mal Nosso de Cada Dia irá facilmente identificar seus personagens e captar as entrelinhas do filme. Quem depende apenas do roteiro de Antonio e Paulo Campos possivelmente se sentirá pouco envolvido e um pouco confuso quanto à motivação dos personagens: afinal, por que eles eram tão ruins? São experiências completamente diferentes.

    Um recurso utilizado pelo diretor Antonio Campos para tentar aprofundar um pouco o estudo dos personagens e situar melhor o público foi a narração do autor, o que deixa tudo mais anticlimático do que o necessário. Eu sempre prefiro que os personagens demonstrem o que pensam de outras formas: com ações, expressões e detalhes da narrativa que podem entregar isso, sem a necessidade de alguém explicando o tempo inteiro.

    No livro, Donald Ray Pollock constrói o caráter das pessoas por meio da repetição: Willard mata muitos, tipo, MUITOS animais para seu pequeno cemitério maldito. No filme parece que foi só o cachorro. Carl e Sandy cometem vários crimes antes de cruzarem seu caminho com personagens importantes, o que deixa estes encontros ainda mais significativos. Teagartin e Lenora mantêm seus encontros por certo tempo, o que deixa o leitor com ainda mais asco do pastor. São construções que o filme não conseguiu fazer, mas que acabam interferindo no envolvimento do público com a história e com os personagens.

    Carl e Sandy de O Mal Nosso de Cada Dia

    Outra facilitação adotada pelo filme é situar o público nos anos em que determinada parte da história irá se passar. O livro não tem isso, forçando o leitor a ligar os pontos através dos detalhes entregues pelo autor. Eu entendo, sem isso o filme ficaria um pouco confuso quanto à linha do tempo. Porém, ao tentar adotar uma passagem de tempo mais cronológica e mudando a ordem com que alguns eventos são apresentadas ao público, o longa acaba perdendo o impacto de algumas revelações que são muito mais significativas no livro.

    O núcleo de Arvin e Lenora é sem dúvida o coração tanto do livro como do filme e O Diabo de Cada Dia conseguiu reproduzir isso. Porém, as histórias periféricas acabaram ficando pouco desenvolvidas, prejudicando a compreensão da sua relevância para a história. É o caso de Carl e Sandy, do xerife Lee Bodecker e do pastor Roy Laferty.

    Mas afinal, O Diabo de Cada Dia é um filme ruim?

    Com tudo o que eu disse até agora pode até parecer uma contradição, mas O Diabo de Cada Dia ainda é um filme decente. O tão badalado elenco não decepciona em momento algum, entregando ótimas atuações, que fazem o que podem para que o público conheça melhor aqueles personagens. Alguns sotaques me pareceram mais do sul do que do norte dos EUA, mas não prejudica a sua experiência.

    Robert Pattinson em O Diabo de Cada Dia

    Robert Pattinson é sem dúvidas o destaque aqui. Mesmo com pouquíssimo tempo de tela, ele consegue construir um pastor asqueroso que conseguirá gerar repulsa no público – que não sabe da missa nem a metade (trocadilho intencional). Outro ator que chama a atenção é Harry Melling, curiosamente interpretando outro pastor e, mais curiosamente ainda, um alumni de Harry Potter, assim como Pattinson. Para sua mente explodir: Cedrico Diggory pega a filha de Duda Dursley. Boom!

    Aliás, pausa de apreciação de Harry Melling: se você já viu The Ballad Buster Scruggs já entendeu que este ator ainda tem muito a mostrar e que vale a pena ficar de olho. Torço para que ele consiga papéis maiores, porque esse primo do Harry Potter tem muito potencial!

    Tom Holland faz um trabalho honesto no papel de Arvin. Eu ainda tenho dificuldade de separá-lo do Homem-Aranha, mas acho que esse problema é mais meu do que dele. Eliza Scanlen é outra atriz para ficar de olho. Lenora pode não ter a expressão da personagem que a atriz entregou em Adoráveis Mulheres, mas sem dúvida é uma figura que cativa com sua timidez e conflitos internos.

    Tom Holland em O Diabo de Cada Dia

    Além das atuações, o filme conta com um competente trabalho de design de produção e de fotografia, elevando o tom macabro da história quando necessário e dando um pouco de leveza quando isto é possível. Esperava um pouco mais do tal do cemitério maldito, mas acredito que o filme tenha entregue algo muito mais realista do que a minha fantasia quando li o livro. A edição tem algumas escolhas bacanas de match cut, mas acaba prejudicada pelas escolhas do roteiro na maior parte do tempo (pelos motivos que já citei ali em cima).

    Eu sei que é muito triste dizer que algum filme “até que é bom por ser Netflix”, mas este é realmente o caso de O Diabo de Cada Dia. A intenção é boa, o elenco é bom, o material fonte é sensacional, mas o resultado acaba prejudicado pelas limitações de seu formato. Quem sabe uma minissérie do romance de Donald Ray Pollock faria a justiça que a história merece. Se for assistir ao filme, busque o livro primeiro e tenha uma experiência completa.

    Nota:

    Imagens:© 2020 Netflix, Inc.

     

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