Estou pensando em acabar com tudo | 11 Pistas para entender o filme

    Jessie Buckley

    Se você ainda não está se sentindo desorientado o suficiente neste ano de 2020, a Netflix trouxe a solução: o filme Estou pensando em acabar com tudo. Adaptado do livro de Iain Reid pelo já desgraçado da cabeça (no melhor dos sentidos) Charlie Kaufman, o filme é um labirinto de acontecimentos que abordam a mente humana, nossas lembranças, nossas relações com os outros e, como o nome diz, a vontade de, enfim, acabar com tudo.

    A trama começa com uma jovem mulher (Jessie Buckley) embarcando em uma viagem de carro com seu namorado Jake (Jesse Plemons) para ir conhecer os pais dele, que moram em uma fazenda afastada da cidade. Mesmo com uma neve que insiste em cair mais intensamente, eles encaram a road trip que parece não chegar nunca ao seu destino.

    Mas este não é um road movie e eles finalmente chegam à distante fazenda. Antes que ela tenha a possibilidade de conhecer os pais do crush, Jake comenta com ela alguns episódios bem infelizes da vida na fazenda, deixando tudo mais sombrio do que o tempo nublado e com a neve que se recusa a cessar.

    Estou pensando em acabar com tudo

    Conhecer os pais do namorado pode ser uma experiência bem esquisita, mas este filme ganha o troféu. O comportamento da mãe (Toni Colette) e do pai (David Thewlis) é bem esquisito e, como se isso não fosse o suficiente, coisas estranhas acontecem o tempo inteiro, como uma mesa que se põe do nada, pessoas que somem do cômodo de uma hora pra outra e o fato de que os pais de Jake parecem trocar de idade com certa frequência.

    [a partir daqui teremos spoilers inevitáveis, então recomendo que você só leia se já assistiu ao filme]

    Paralelamente ao jantar familiar mais esquisito de todos os tempos, acompanhamos a rotina de um zelador de escola que tem alguns pontos em comum com algumas experiências que Jake compartilha. Esta é a parte mais fácil de entender e de matar do filme: fica meio claro que o tal do zelador é Jake, só não sabemos ainda de que forma os dois episódios se conectam.

    Voltando do jantar esquisito, a neve piora e Jake e sua namorada param no caminho, no meio da noite, para comprar sorvete (sim, no meio de uma nevasca) e, depois de um assustador desvio, eles vão para a escola onde Jake havia estudado. Neste local há uma das sequências mais tensas e mais simbólicas do filme, filmada com a representação de um balé. No fim das contas, o zelador morre congelado dentro de seu carro estacionado lá fora e Jake recebe uma estranha homenagem, como num Nobel, com o cenário do musical Oklahoma. O filme acaba e você fica dividido entre um grande WTF e a sensação de ter visto algo possivelmente brilhante demais para ser compreendido em sua totalidade.

    Jantar de Estou pensando em acabar com tudo

    Afinal, qual a explicação do filme Estou pensando em acabar com tudo?

    Mais ou menos como acontece com filmes de David Lynch e com a proposta do próprio Kaufman, oferecer uma única explicação sobre Estou pensando em acabar com tudo não é justo e nem honesto com esta obra. O filme é sobre várias coisas ao mesmo tempo e a sua interpretação muito possivelmente vai depender das suas experiências e referências.

    Porém, nem tudo aqui é só uma grande viagem e alguns pontos são comuns em todas as interpretações que você buscar. Por exemplo, o fato do zelador ser Jake e de a coisa toda ser uma experiência de quase-morte do personagem. Mais ou menos como em Cidade dos Sonhos de Lynch (outro filme impossível de decifrar como algo muito fechado), os eventos tem a ver com a sensação de “antes de morrer sua vida toda passa diante dos seus olhos”. Bom, pode não ter sido a vida inteira, concentrando os fatos no jantar, mas tem muito a ver com as memórias de Jake.

    Porém, uma coisa que precisamos entender sobre a memória humana é que ela nem sempre reflete a verdade. Isso explica a constante mudança de identidade da namorada de Jake: além de trocar de nome o tempo inteiro, a cada conversa ela parece ter uma profissão diferente. Além disso, em determinado momento Jake diz que ela é idealizada, ou seja, muito possivelmente ela é apenas uma projeção do personagem do que seria a namorada perfeita que ele nunca pôde apresentar aos seus pais.

    Jesse Plemons

    Alguns podem entender que a mulher seria uma junção de todas as namoradas de Jake, o que eu também entendo como uma hipótese válida. Porém, nem em um relacionamento idealizado as coisas são perfeitas: em conversas ela constantemente desafia Jake com seu conhecimento e sabemos que ela não está particularmente feliz em seu relacionamento com o namorado – o nome do filme poderia justamente indicar a vontade da personagem em terminar o namoro.

    A descrição e as reflexões dela sobre o relacionamento dos dois e a vida de forma em geral pode ser vista por algumas pessoas como uma metáfora para um longo relacionamento que se desgastou, mas que nenhuma das partes decidiu fazer algo a respeito para melhorar ou encerrar. Nesta interpretação, a mulher seria a lembrança da esposa de Jake, que passou a vida inteira em um relacionamento desagradável, mas simplesmente continuou levando.

    Todas estas interpretações são possíveis pela liberdade que o filme dá ao público em entender a história da forma que ela se relacionar melhor com suas experiências pessoais. De forma geral, entendemos que Estou pensando em acabar com tudo diz muito sobre experiência de quase-morte, memórias (verdadeiras ou inventadas), relacionamentos amorosos e familiares e, principalmente, sobre solidão.

    Balé em Estou pensando em acabar com tudo

    11 Pistas de Charlie Kaufman sobre Estou pensando em acabar com tudo

    Longe de oferecer uma explicação fechada do filme, o diretor Charlie Kaufman, a exemplo do que Lynch fez com Cidade dos Sonhos, ofereceu algumas pistas, alguns pontos de partida para dar um pouco mais de propriedade à interpretação do filme e também para deixar a sua experiência mais rica. O conteúdo foi originalmente publicado no site da Indie Wire e a seguir você confere um resumo:

    1. Por que parece que Jake pode ouvir os pensamentos da namorada?

    No começo do filme, Jake parece ouvir os pensamentos da então Lucy de querer “acabar com tudo”. A explicação tem relação com o fato de ela ser fruto da fantasia dele enquanto um solitário zelador de escola. Algo meio Psicose e meio Clube da Luta. Jake teria construído sua namorada “ideal” a partir de livros, filmes e acontecimentos breves que moldaram sua visão solitária de mundo.

    2. Então Lucy é a personagem principal e ao mesmo tempo não existe?

    Sim e não. Uma das sacadas mais inteligentes do filme é levantar a pergunta: uma fantasia pode existir nos seus próprios termos? Kaufman usou Lucy como um dispositivo, mas que possa se separar desta função.

    Jesse Plemons e Jessie Buckley

    3. Ok, mas isso ainda não quer dizer que ela seja uma pessoa real

    Exato, mas ela tem um poder representativo definido ao passo em que Jake se convence da impossibilidade da sua fantasia. Isso fica particularmente evidente quando a fantasia reage. Conforme explica Kaufman, “eu preciso que ela tenha ação para que isso funcione de forma dramática. Eu realmente gostei da ideia de que, mesmo na sua fantasia, Jake não consegue ter o que quer. Ele vai imaginar as coisas, mas daí ele também vai imaginar como aquilo não daria certo, como ela ficaria entediada com ele, como ela não vai achar que ele é suficientemente inteligente ou interessante”.

    4. Qual o significado daquele filme de Robert Zemeckis que o zelador assiste?

    A escolha para um suposto filme de Zemeckis aconteceu aleatoriamente para Kaufman, quando o assistente de direção sugeriu uma lista de diretores. “Às vezes as coisas são engraçadas porque são engraçadas e eu sinto que este era um filme que poderia ter sido feito por Zemeckis, embora fosse algo improvável”, explica Kaufman. Ele pediu permissão a Zemeckis para fazer a referência e o diretor aparece nos agradecimentos do filme.

    5. No jantar, por que os pais mudam o tempo inteiro?

    Em sua fantasia, Jake está vivendo através de várias fases das vidas de seus pais, um processo que complica a ideia de trazer a nova namorada para casa. Em que momento da vida ele faria isso? As mudanças ocorrem porque Jake simplesmente não consegue encontrar um momento perfeito para fazer isso. Apesar de ele querer muito ficar naquela casa com ela, eles acabam indo embora graças à insistência dela.

    Jessie Buckley

    6. Qual o lance do sorvete Tulsey Town?

    Na viagem de volta, os dois param em uma sorveteria no meio do nada para comprar sorvete. Lá, a namorada interage com três atendentes: duas bem sorridentes, meio que flertando, e uma que parece estar aterrorizada. Segundo Kaufman, elas são referências a mulheres que Jake viu em algum momento, possivelmente estudantes do colégio. É uma parada agradável no inconsciente do personagem.

    7. Vamos falar daquela sequência de dança

    Quando os dois param na escola, a namorada tem uma conversa acolhedora com o zelador, que “a libera” para seguir seu rumo – sugerindo que ele deva se separar de sua fantasia. Logo em seguida, rola uma sequência de balé em que dançarinos interpretam Lucy e Jake. O padrão de dança é semelhante a uma cena do musical Oklahoma!. Em uma cena anterior, o zelador vê um ensaio desta peça, o que inclui a personagem Laurey no meio de uma disputa entre dois pretendentes: Curly McLain e Jud Fry. A sequência acaba com a morte de Curly, mas no balé do filme, é o bailarino de Jake quem morre, sugerindo que ele aceita a impossibilidade de seu amor. O diretor também defende que Jake tem fingido ser outra pessoa e usa a narrativa de Oklahoma! para acabar com a fantasia.

    8. E a animação do porco falante?

    No carro, o zelador parece ter algum tipo de ataque e muito possivelmente morre. Em uma alucinação ele vê pedaços de sua juventude, incluindo o comercial da sorveteria. Isso leva a uma animação do porco com larvas no estômago, de uma história que Jake tinha contado anteriormente a Lucy. Há algo sobre a inocência do porco e este episódio das larvas que traumatizaram Jake quando ele era mais novo. Já velho, ele se conforma com estes desequilíbrios do universo.

    Cena de Estou pensando em acabar com tudo

    9. Na última cena, o público está velho… mas parece meio falso

    Jake está no palco do auditório da escola, com o cenário de Oklahoma! ao fundo, recebendo algum prêmio e com uma maquiagem bem caricata para envelhecê-lo, bem como as pessoas na plateia. No roteiro de Kaufman uma cena daria um pouco mais de contexto para esta cena: em que o zelador encontra maquiagem em um dos banheiros da escola. A maquiagem permite que as pessoas na cabeça dele possam envelhecer com ele, incluindo todas as crianças que ele viu ao longo dos anos trabalhando na escola.

    10. O discurso dele é o mesmo de Uma Mente Brilhante?

    Sim! Ao receber seu prêmio, Jake recita o mesmo discurso de John Nash (Russel Crowe) ao receber o Nobel em Uma Mente Brillhante. Aliás, toda a cena foi feita para ser uma referência ao filme de Ron Howard. Ainda na casa dos pais de Jake, é possível ver um DVD deste filme no antigo quarto dele, o que serve de referência para o fato de que Jake possivelmente se identifica com a história de um homem brilhante que precisa lidar com esquizofrenia paranoica e que tem dificuldade de distinguir o que é real do que não é.

    11. E então Jake canta e acaba, certo?

    Em mais um paralelo com o musical Oklahoma!, Jake tem a chance de estrelar sua própria história, ao mesmo tempo em que é confinado por ela. A cena final, do carro do zelador coberto pela neve sugere que ele morreu ali, no meio da noite. Trata-se de um final trágico, mas ainda assim bonito, para a história de um homem confrontando os fracassos da sua vida enquanto morre.

    Nota:

    Imagens: Netflix

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