Estrada sem Lei | Nova versão para Bonnie & Clyde não convence

    Estrada sem lei

    Estrada sem Lei é um daqueles filmes que vai chamar a atenção no catálogo da Netflix por dois motivos: 1) ter como protagonistas atores como Kevin Costner e Woody Harrelson; 2) contar a história dos bandidos Bonnie & Clyde por outro ângulo. Filmão, certo? Só se for pela duração, porque todo o resto da produção de John Lee Hancock é absolutamente dispensável.

    A história conta como dois patrulheiros policiais do Texas foram retirados da aposentadoria por serem a “única opção” para capturar o casal de bandidos que, apesar de estarem aumentando a violência dos ataques, ainda juntavam fãs pelos Estados Unidos. Eles são Frank Hamer (Kevin Costner) e Maney Gault (Woody Harrelson) e enfrentam todo tipo de questionamento por parte dos demais policiais mais jovens, que não os deixam “fazer o seu trabalho” direito.

    Estrada sem lei

    Uma coisa que fica clara sobre os dois é que, embora eles sigam uma espécie de código de conduta super ético e pareçam os próprios guardiões da virtude policial, eles estão cansados de ver uma dupla de bandidos ser idolatrada pelas pessoas. Não há muita química na nossa dupla de policiais além de um sentimento mútuo de culpa que só lá pro final do segundo ato é que a gente vai entender do que se trata – spoiler alert: tem a ver com uma operação em que eles não pediram para os bandidos levantarem as mãos antes de começarem a atirar. Sim, é isso o que assombra estes dois policiais até hoje.

    Todo o filme Estrada sem Lei parece não ser apenas um contraponto, mas um questionamento do clássico Bonnie & Clyde, de 1967 com Warren Buffet e Faye Dunway nos papéis principais. O problema é que esta nova versão da história gasta tanto tempo só dizendo o quão errado era idolatrar os bandidos que nem ao menos tenta entender por que o público ficava do lado deles e não dos policiais. O filme se limita a uma definição muito preto no branco de mocinho e bandido, de quem é bom e de quem é mau, que não convence. Não gera empatia pelos seus protagonistas e pela missão que eles tinham.

    Uma prova disso é que o tempo inteiro o filme reafirma o quanto Bonnie e Clyde eram maus, matando policiais pelo caminho, e como os nossos policiais eram tão bonzinhos que eles até ganharam a “benção” do pai de Clyde para matarem seu filho. É sério, em uma conversa com Hamer o pai do bandido diz que seu filho nunca se entregará, que ele sabe que aquilo vai acabar com a morte de Clyde e ainda pede que Hamer faça isso logo “pelo bem da família”. Ou seja, a emboscada e aquela metralhada do jeito que foi nos bandidos eram só um favor que os policiais estavam prestando à família do bandido.

    É uma história conhecida e que todos nós sabemos como acaba, o que exige muito mais um bom ritmo de perseguição policial. Mas não é isso o que Estrada sem Lei entrega. No começo da missão o filme já deixa claro como aquilo será resolvido: com armamento pesado. A cena em que Hamer vai comprar armas na loja é uma verdadeira pornografia para os armamentistas, principalmente os que se autointitulam “cidadãos de bem”, assim como Hamer.

    Estrada sem lei

    Quando a história precisa se desenvolver com a investigação em si o ritmo é muito arrastado, com elementos premeditados e repetitivos (como a cena em que os dois “velhos” tentam correr atrás de um garoto com a mensagem dos bandidos) e frases de efeito, cujo único efeito é só fazer você revirar os olhos. Mais uma vez.

    Na primeira metade tudo acontece muito devagar, com os dois policiais muito longe de seu objetivo e perdidos na rixa com os policiais mais novos. O filme tenta dizer de todas as formas que “o velho é melhor do que o novo”, mas com uma dupla apática e com escrúpulos até demais (vide aquela frase “eu nunca atirei numa menina”) fica difícil nos convencer disso.

    Falando na dupla principal, é decepcionante ver atores como Kevin Costner e Woody Harrelson em personagens tão mal escritos. Não há camada nenhuma ali para desvendar. Costner é o responsável, policial certinho mas que perde o temperamento quando vê pessoas protegendo bandidos. Já Woody Harrelson tem aquela áurea bêbada e um pouco menos de alívio cômico do que estamos acostumados. Os dois parecem funcionar em automático, mas provavelmente é só porque o roteiro não exigiu mais do que isso.

    Estrada sem lei

    Tecnicamente também não encontramos nada muito inspirador. A fotografia tem seus momentos em valorizar a paisagem árida do sul dos Estados Unidos, mas nada memorável. Os planos e sequências são bem tradicionais e os cortes excessivos em algumas cenas de ação tiram um pouco a emoção da coisa. A sequência provavelmente melhor executava fica bem no final, com uma espécie de desfile do carro com os bandidos mortos dentro, que reúne multidões desesperadas. Chega a ser perturbador e é o único momento em que o filme causa algum tipo de emoção.

    Eu entendo as boas intenções de Estrada sem Lei em querer lembrar que bandidos e assassinos não devem ser idolatrados (nem na ficção e nem no mundo real). Mas ao não provocar um questionamento inteligente do assunto e forçar a barra naquela nota só dos policiais virtuosos, o tiro literalmente sai pela culatra e só nos lembra do quão melhor o filme sobre o lado dos bandidos é.

    Nota de Estrada sem Lei:

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    Imagens: Netflix


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