It: Capítulo Dois | Roteiro simplório e repetitivo estraga a continuação do filme

It: Capítulo Dois

 

A continuação para um dos filmes de terror de maior bilheteria gerou muita expectativa, mas infelizmente It: Capítulo Dois não consegue estar à altura do que se esperava e nem gerar a mesma simpatia provocada por It: A Coisa. Em um filme com um elenco de peso e adaptando uma das maiores obras de Stephen King, o roteiro e a edição apenas entregaram uma produção rasa, repetitiva e inexplicavelmente longa para o que se propõe.

Passaram-se 27 anos em relação ao primeiro filme e o “Clube dos Perdedores” precisa cumprir sua promessa de enfrentar novamente o palhaço Pennywise (Bill Skarsgård) unido. O elenco é bem promissor, com atores do calibre de James McAvoy, Jessica Chastain e Bill Hader, mas isso não é suficiente para manter a qualidade da continuação.

Elenco de It: Capítulo Dois

A primeira meia hora de filme se ocupa em mostrar separadamente como cada um dos integrantes está levando a vida adulta e como recebem a notícia do retorno do palhaço. Todos são contatados por Mike (Isaiah Mustafa), o único que permaneceu na cidadezinha de Derry e o único que realmente se lembra de tudo o que aconteceu no primeiro filme.

É um pouco extenso e um tanto repetitivo, mas beleza, o livro tem uma pegada meio parecida, embora tenha a vantagem do paralelo entre os personagens de 11 e 38 anos de idade. A gente quer acreditar que a reunião do grupo no restaurante chinês vá restabelecer a química entre os personagens e dar o rumo para os acontecimentos a seguir, mas infelizmente não é bem isso que acontece.
 

 

Após saberem o motivo da ausência de um dos membros do grupo, Stanley (Andy Bean), eles precisam de um plano de ação para enfrentar novamente Pennywise e, com sorte, derrotá-lo de vez. A explicação vem de mão beijada por Mike, que passou todos estes anos pesquisando o assunto, e a tarefa de cada um é apenas recuperar um token, uma espécie de amuleto, que os conectem ao seu passado. Uma metáfora bem bacaninha para os traumas que eles deixaram para trás.

A partir daí a gente volta à fórmula de que cada um deles irá enfrentar o palhaço sozinho e precisará superar alguma espécie de trauma. Com flashbacks desnecessários, que só servem para nos lembrar de como o primeiro filme era melhor, estes acontecimentos se repetem seis vezes, ocupando provavelmente 1/3 do filme só com isso. Fica monótono e desnecessariamente repetitivo. Uma edição um pouco mais inspirada poderia ter juntado tudo isso traçando uns paralelos bem legais entre as histórias dos personagens.

Depois de tudo isso, o desfecho é bem parecido com o primeiro, o que não dá pra criticar tanto já que no livro também é meio que assim. Esta é uma das desvantagens da divisão dos filmes entre crianças e adultos, perde-se o paralelo do amadurecimento e entregam-se dois produtos muito parecidos.

It: Capítulo Dois

 

It: Capítulo dois repete erros e perde principais trunfos do primeiro filme

 

Uma das coisas mais legais do primeiro filme era aquele clima de nostalgia que nos lembrava de filmes como Os goonies e Conta comigo. A química entre o Clube dos Perdedores funcionava muito bem e nos convencia de que eles eram um grupo empenhado em acabar com o palhaço do mal. Uma pena que esta seja apenas uma distante lembrança em It: Capítulo Dois, que mais parece uma coleção de talentosos atores que disputam a atenção do público.

Isso fica bem evidente quando falamos do triângulo amoroso entre Bill (James McAvoy), Beverly (Jessica Chastain) e Ben (Jay Ryan). No primeiro filme a gente entendia bem aquela dinâmica do novato gordinho apaixonado pela garota rebelde, que só tinha olhos para o poeta do grupo. Aqui isso ficou meio de lado, com alguns flashes de um Ben ressentido pelo segredo de seu amor a Beverly e um Bill apenas preocupado em salvar o moleque do skate, uma releitura bem preguiçosa do trauma da morte do irmão mais novo no primeiro filme.

James McAvoy em It: Capítulo Dois

Aliás, Ben é um dos personagens mais prejudicados pela continuação. Sem tempo para explorar o desenvolvimento do personagem até aqui, o filme tentou resumir a evolução dele a um “olha, ele ficou rico e bonitão”, enquanto o personagem do livro tem camadas muito mais obscuras causadas pelo bullying da infância. O romance dele com a Beverly no final se resumiu a “oh! Foi você que escreveu o poema, então agora eu te amo”. Desnecessário e ridículo.

Mike, apesar de ter recebido um pouco mais de espaço do que aquela participação insípida do primeiro filme, ainda não teve seu personagem aproveitado propriamente. Ele é a cola que une o grupo na segunda parte da história, mas o filme o deixou quase que com o papel de telefonista e o cara que fez uma pesquisa no Google pra resolver as paradas. Ele merecia mais.

Elenco de It Capítulo Dois

Por outro lado, tem personagem que eles poderiam ter deixado totalmente de fora que não faria a mínima diferença. Quando o bully Henry Bowers (Teach Grant) teve um rumo diferente do adolescente do livro, eu imaginei como eles dariam conta disso na continuação. Com uma justificativa bem malcriada, trouxeram o personagem de volta e o colocaram no mesmo pé do livro. Mas isso não serviu pra praticamente nada, apenas uma cena que poderia facilmente ter sido resolvida de outra forma.

Além de não conseguir repetir os acertos do primeiro filme, It: Capítulo Dois conseguiu repetir os erros. Jump scares repetitivos e frequentes demais acabaram destruindo a própria experiência do terror. Há um excesso do palhaço correndo em direção à tela e depois do segundo susto o recurso deixa de funcionar para o terror e até mesmo para a comédia.

Pennywise

 

O que se salva em It: Capítulo Dois

 

Pra não dizer que o filme é uma perda total de tempo, é preciso reconhecer a tentativa de Andy Muschietti em se manter fiel ao original, na medida do possível. Apesar do terror menos psicológico do que King propõe, a mensagem da superação dos traumas do passado está ali.

Outro ponto forte é o trabalho de maquiagem e o esforço de Bill Skarsgård em entregar um Pennywise ainda mais assustador do que o do primeiro filme. Diretores mais preguiçosos optariam pelo CGI na maioria dos momentos, mas dá pra ver que aqui houve um compromisso em entregar o horror mais real possível. Claro que existe CGI, mas ele é bem mais contido do que se espera (ainda bem!).

Pennywise em It Capítulo Dois

O momento que os fãs mais vão gostar é da participação especial de Stephen King. Como se o papel dele do rabugento dono da loja de antiguidades não fosse suficiente, a piada de que Bill é um famoso escritor, mas que tem problemas no final de suas obras, é uma alfinetada pontual no próprio King. A crítica tem endereço certo ao livro de A Coisa, que tem um final bem controverso, felizmente corrigido pelo primeiro filme.

 

Nossa conclusão sobre o filme

 Um roteiro menos preguiçoso e uma edição mais objetiva resolveriam boa parte dos problemas que deixaram It: Capítulo Dois tão aquém de sua primeira parte. A possibilidade de uma continuação para um filme tão repetitivo é ainda mais assustadora do que qualquer palhaço macabro.

Nota:

Imagens: Brooke Palmer – © 2019 Warner Bros. Entertainment Inc.

 

 

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