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O diabo toca jazz


 
Filmes focados na relação mestre x aprendiz são super comuns e já viraram quase uma commodity no mundo do cinema. Alguns são super inspiradores, como Sociedade dos poetas mortos, outros se adaptam para virar sagas que sobrevivem por décadas, sim, estou falando de Star Wars e outros focam justamente no conflito das partes, como é o caso de Whiplash.

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Logo de cara a gente já percebe que é este o tipo de relação que dará a tônica do filme. Mas se engana quem acha que vai ser algo tipos Ao mestre com carinho, Whiplash está mais pra um Diabo Veste Prada do jazz. Ok, podem me odiar pela comparação, mas a coisa vai bem por aí com uma vantagem: jazz!

Tal qual Miranda Priestly, a editora casca-grossa interpretada por Meryl Streep, J.K. Simmons é Terence Fletcher, um professor e regente de música que abusa do tough love pra extrair o melhor de seus alunos. A tensão é focada em Andrew, um obstinado baterista que faz de tudo para merecer o respeito de Fletcher.
 


 

Não vou me prolongar muito na discussão dos abusos psicológicos causados por Fletcher, que já levaram um ex-aluno a um quadro de ansiedade e depressão que resultou em suicídio. Aliás, nem o filme se aprofundou muito nessa discussão, o que eu teria achado super válido uma vez que este tipo de situação é muito mais comum do que a gente goste de admitir. Quase todos passamos por situações com pais, professores, chefes em que o “excesso de zelo” se transforma em implicância e acaba transformando o incentivo à superação em uma sabotagem à autoconfiança do pupilo.

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O que me chateou um pouco em Whiplash foi justamente a falta de aprofundamento nos conflitos dos personagens, já que os efeitos são exaltados o tempo inteiro (a cena do acidente de carro é o melhor exemplo disso – aliás, parabéns à equipe de edição). Ou isso ou a ausência de um protagonista que gerasse um pouco mais de empatia. Enfim, faltou algo ali.

O maior trunfo do filme é justamente a atuação de J. K. Simmons, que deve arrecadar um Oscar pela performance. Fletcher é o tipo de personagem que a Academia gosta de premiar e o Simmons não apenas correspondeu, como superou o próprio personagem pelo contraste entre as cenas de incentivo e os rompantes de perfeccionismo com os membros da banda em uma questão de segundos. Se você olhar atentamente, dá pra ver a transição apenas nas expressões faciais do ator.

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O trabalho do Simmons é tão relevante pro filme que eu tenho as minhas dúvidas se o personagem dele é tão coadjuvante assim. Acho que deixaram de indicá-lo na categoria principal para que ele tenha mais chances de levar a estatueta pra casa (acredite, isso é mais comum do que a gente imagina). A própria Miranda Priestly deveria ser uma coadjuvante, mas foi pra categoria principal por motivos de: cota Meryl Streep.

Comparações infames à parte, vale muito a pena conferir Whiplash. Fã de jazz ou não, o pior que pode te acontecer é ter 1h42 de música da melhor qualidade e uma atuação do J. K. Simmons que nem o próprio Terence Fletcher botaria defeito.
 

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