O suspense, as camadas e o feminismo de Elle

    Elle


     

    Gritos, sons de confronto corporal, parece sexo… mas pode ser um estupro. Ah, é um estupro. O estuprador tá todo coberto, não dá pra saber quem é. O gato vê tudo. Que gato sacana! Se bem que o que ele iria fazer, né? Ele é só um gato. Coitada da mulher, espero que ela se vingue. Isso é mais ou menos tudo o que acontece na nossa cabeça na cena inicial de Elle, longa francês dirigido por Paul Verhoeven, mas vem muito mais pira pela frente…

    Elle

    A princípio e a ler pelas sinopses, a gente até acha que o plot de Elle é simplesmente descobrir a identidade do estuprador e ver a protagonista Michèlle Leblanc (Isabelle Huppert) se vingar. Mas conforme a história se desenvolve descobrimos que tem muito mais coisa mal explicada na vida dela. Ataques gratuitos de desconhecidos nas ruas, afrontas dos funcionários da empresa, uma relação bem esquisita com o ex e um filho bobão são apenas alguns dos elementos que rodeiam a vida de Michèlle. A identidade do estuprador é apenas um dos mistérios.

    Uma das primeiras coisas que notamos em relação à Michèlle é que em momento algum ela se coloca em posição de vítima, nem mesmo após o estupro da abertura do filme. Ela toma um banho, joga a roupa fora, vai trabalhar no dia seguinte, não denuncia o episódio à polícia e conversa sobre o assunto com os amigos como se estivesse contando que quebrou uma unha. Isso já mostra que Elle não é uma personagem previsível. Podemos esperar qualquer coisa desta mulher.

    Isabelle Huppert em Elle

    Também não dá pra simpatizar muito com ela quando vimos como ela trata a sua equipe, seu ex-marido, sua mãe… enfim, todo mundo. O tal do estupro pode ser aleatório ou até mesmo retaliação de algo que a gente nem sabe direito o que é. Pra completar, nenhuma das pessoas ao redor de Michèlle presta, nem mesmo aquelas que parecem perfeitas demais.
     


     

    Tem muitas histórias paralelas e muitas pontas a serem amarradas ao longo do filme, mas todas elas convergem para a protagonista. Em uma alusão a Paris, cidade onde se passa a trama, Elle é praticamente um Arco do Triunfo, aonde todas as estradas levam. Ela é o elemento centralizador de toda a treta que tá rolando: seja no trabalho, com o filho, com os amigos, com a mãe… Não é à toa que o filme leva o nome dela.

    Centralizar todas as ações no protagonista é uma escolha arriscada, que deposita muita responsabilidade no ator. Aqui, Isabelle Huppert consegue se sobressair em uma performance que carrega quase todo o filme nas costas, não fosse pelo roteiro altamente intrigante. Não é à toa que ela levou o Globo de Ouro por Melhor Atriz Drama e conseguiu a indicação para o Oscar na categoria de Melhor Atriz.

    Isabelle Huppert em Elle

    O que a gente precisa saber sobre Elle é que não se trata de um filme de estupro ou de vitimização feminina. Conseguimos ver aqui uma protagonista realmente forte, complexa e que pode nos surpreender a qualquer momento. Ela dificilmente irá gerar simpatia (acho que ninguém neste filme consegue), mas também não é uma rocha o tempo inteiro. A personagem leva o Girl Power a um outro nível, mais realista, sem vitimização, sem demonizar homens e sem santificar as mulheres. É uma mulher com suas falhas, desejos subversivos, muitas atitudes que podem ser consideradas condenáveis, mas ainda assim você não tem como não admirá-la por toda a sua força. Pra fechar, ainda fica uma ponta propositalmente solta sobre o passado dela, porque né? Se acaba o mistério acaba o encanto.

    Elle pode ter um ritmo meio arrastado pra alguns, muita subversão, alguns absurdos narrativos e um fim questionável para outros. Ainda assim, é um dos filmes mais intrigantes da temporada, que vai conseguir te envolver e te deixar com várias pulgas atrás da orelha. É daqueles filmes que cada vez que você assiste enxerga algo diferente, percebe uma nova camada de personagem e formula novas teorias. Filme inteligente para quem não se contenta com o óbvio.

    Elle

     

    Nota:

    Trailer de Elle

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