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Velvet Buzzsaw | Explicando o filme da Netflix

Velvet Buzzsaw


 

O filme de terror e comédia de humor negro Velvet Buzzsaw, que estreou recentemente na Netflix, deixou algumas pessoas com a pulga atrás da orelha, principalmente quanto ao seu final. Se você ainda não viu o filme, já aviso que este post contém spoilers sem muito aviso prévio (a não ser por este).

A história se passa em Los Angeles, no núcleo de galerias de arte. Conhecemos Morf (Jake Gyllenhaal), um crítico de arte que é capaz de valorizar ou destruir uma obra; Rhodora (Rene Russo), uma implacável dona de galeria de arte que costumava ter uma banda punk chamada Velvet Buzzsaw; e Josephina (Zawe Ashton), uma ambiciosa negociadora de arte que agarra qualquer oportunidade para subir na carreira. Estes são os principais, mas há outros personagens como uma compradora de obras de arte (Toni Colette), um artista que resolveu largar os vícios do mundo da arte (John Malkovich), uma trainee que só se ferra (Natalia Dyer) e o cara que monta as instalações na galeria e também se considera um artista (Billy Magnussen).

Velvet Buzzsaw

Depois do filme se ocupar em nos apresentar a esta turminha do barulho, a coisa começa a acontecer: Josephina encontra seu vizinho morto no corredor do prédio e descobre que ele deixou em seu apartamento uma infinidade de quadros. Com sua vontade em crescer a qualquer custo (e fazer dinheiro, lógico), ela coloca os quadros no mercado, mesmo contra a vontade do artista, que pediu para que as obras fossem destruídas.

 


 

E é aí que a coisa começa a ficar interessante: qualquer pessoa que tente lucrar em cima das obras do falecido artista Ventril Dease acaba morrendo. Mas não é qualquer morte, pense no mais pastelão dos slashers e você terá a pilha de corpos de Velvet Buzzsaw, com direito a ser engolido pela arte, perder um braço dentro de uma esfera em exposição e até mesmo ser assassinado pela própria tatuagem. É a arte tentando matar as pessoas que se aproveitam dela.

 

Mas afinal, qual o significado de tudo isso?

Tudo é uma grande crítica às pessoas que não valorizam ou apreciam a arte, mas que se apressam em tratá-la como um produto, determinando quem vale mais e quem não vale nada, quais obras serão aclamadas e quais irão para o lixo. A mensagem é clara: todas as pessoas que lucram com a arte sem necessariamente apreciá-la são as vítimas de Dease.

Velvet Buzzsaw

O filme até tenta dar um passado traumático ao artista, digno de qualquer Michael Myers da franquia Halloween, mas isso acaba ficando mais de pano de fundo mesmo. O que é importante saber aqui, é que as obras de Dease não só representam este passado traumático, mas se construíram através dele. Aparentemente algumas das obras tiveram o próprio sangue do artista misturado à tinta, justificando por que alguns quadros “ganham vida”.

Ou seja, o artista constrói seu trabalho em cima de muito sofrimento e tem um monte de pessoas que não se importam com isso, apenas querem lucrar. Não é a primeira vez que o diretor e roteirista Dan Gilroy utiliza esta temática em seus filmes. Um exemplo bem recente é O abutre, que também tem a dobradinha Gylenhaal-Russo, e aborda um canal de TV sensacionalista que ganha audiência em cima da tragédia alheia. Segundo Gilroy, o roteiro de Velvet Buzzsaw surgiu de uma experiência pessoal.

Velvet Buzzsaw

O que Velvet Buzzsaw tem a ver com o Superman do Nicolas Cage?

Dan Gilroy era o roteirista responsável pelo projeto do filme do Superman dirigido pelo Tim Burton e estrelado pelo Nicolas Cage (se você nunca ouviu falar deste projeto, saiba mais aqui). Acontece que quando o projeto foi cancelado pela Warner, Gilroy teve uma imensa frustração porque o mundo nunca teria a chance de ver a sua “obra de arte”.

Foi aí que ele começou o roteiro de Velvet Buzzsaw, reunindo seus ranços quanto à indústria cinematográfica e aos críticos, que muitas vezes ceifam um projeto antes que ele tenha a chance de ganhar vida. O rancor é tanto que ele fez questão de matar todo mundo no filme.

Velvet Buzzsaw

 

E qual a explicação do final de Velvet Buzzsaw?

Há três aspectos sobre o final que deixou muita gente coçando a cabeça e alguns que até dão margem para uma possível continuação. Eles são: Coco é a única que sai ilesa, voltando para Michigan com o gato do artista; os quadros de Deale são vendidos à beira da estrada por apenas US$ 5; e, quando sobem os créditos, o artista interpretado por John Malkovich desenhando na areia da praia. Vamos explicar cada um deles:

Coco sobrevive e vai embora: a sobrevivência da jovem Coco é um suspiro de esperança no mundo da arte. Ela não morre porque é a única que não lucrou com a obra de Deale. É como se ela ainda não tivesse sido “corrompida pelo sistema” e ainda fosse capaz de apreciar a arte pelo que ela é. O retorno dela a sua terra natal tem um grande simbolismo, mostrando que ela deixa a parte mais comercial do mundo da arte, como a comercialização de obras, para trás. O que não significa que ela deixa o mundo da arte para trás, já que arte existe em todos os lugares. O fato de ela levar o gato de Deale junto pode ter algum significado oculto que possibilite uma continuação, ou simplesmente seja algo que reforce sua boa intenção, mostrando que ela se importa com o único legado de Deale que ainda precisaria de cuidados: seu gato e não sua obra.

Velvet Buzzsaw

Os vendedores de rua: as pessoas que vendem os quadros de Deale na calçada conseguiram as obras quando Bryson tentou escondê-los para vender mais tarde, mas acabou sendo a primeira vítima do filme. O fato de elas cobrarem apenas US$ 5 por quadro mostra o quão relativo é o valor que damos à arte. Este fim pode significar duas coisas: como estas pessoas não lucram muito em cima da arte de Deale elas serão poupadas, ou justamente o contrário: com as obras do artista circulando por aí, elas poderão fazer novas vítimas.

O desenho na praia: Piers é um artista que largou todos os seus vícios, principalmente o álcool, mas que continuou se dedicando à arte. Ao longo do filme ouvimos afirmações de como o trabalho dele era melhor quando ele era alcoólatra. Só que em vez de voltar atrás para garantir o sucesso de seu trabalho, Piers resolve se afastar de vez inclusive de galerias e exposições, mostrando o quão tóxico este tipo de ambiente pode ser para o artista. O fato de ele fazer desenhos na areia, que logo serão apagados pelo mar, é bem emblemático: ele está feliz e despreocupado, fazendo sua arte, mesmo sabendo que elas nunca serão vistas. Afinal, será que a beleza da arte não é justamente esta: não se preocupar com o julgamento dos outros?

Nota:

Imagens: Claudette Barius/Netflix


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