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Em chamas | Suspense coreano que queima aos poucos

Em chamas

 

Quando eu assisti Em chamas não entendi completamente o motivo de tanto burburinho e aclamação por parte da crítica. A não ser pela fotografia e pela edição, parecia um suspense normal, um tanto lento e com algumas pontas soltas. Porém, ao contrário do que o nome do filme sugere, não estamos falando de um filme incendiário que explodirá a sua cabeça enquanto assiste. Aqui a coisa queima como uma brasa bem fraca que, depois de algum tempo, irá causar o estrago.

O filme do diretor Chang-dong Lee revela pouco em sua sinopse. A história tem como protagonista Lee Jong-su (Ah-in Yoo), um jovem de origem rural que se envolve com Hae-mi (Jong-seo Jun), uma garota descolada e impulsiva que claramente é muita areia pro caminhãozinho dele (pelo menos no ponto de vista dele). Mas as coisas começam a mudar quando ela volta de uma viagem à África acompanhada pelo playboy Ben (Steven Yeun).

Em chamas

O que parece ser apenas um triângulo amoroso tem na verdade raízes e interpretações mais profundas, envolvendo até mesmo um conflito de classes. Aparentemente a “vela” ali é o camponês Jong-su, que se sente rebaixado com a chegada de um “macho-alfa”. Mas, da mesma forma, Ben dá a entender que ele tem um pouco de ciúme da relação de Hae-mi com Jong-su, já que eles são amigos de infância.

A história muda a mera exposição e exploração desta dinâmica quando Hae-mi desaparece misteriosamente após um episódio em que os três fumaram maconha, Ben fez uma confissão sobre ser piromaníaco a Jong-su e houve algum desentendimento que deixasse a garota chateada. A partir daí a ausência de Hae-mi leva Jong-su a uma série de investigações sobre o destino da amiga.

 


 

A explicação de “Em chamas” está na sua cabeça (contém spoilers)

Uma das principais suspeitas de Jong-su sobre o desaparecimento de Hae-mi logo vai pipocar na cabeça do espectador: em sua confissão, Ben diz que gosta de incendiar estufas abandonadas. Jong-su junta este fato a uma descoberta anterior de uma coleção de objetos femininos no banheiro de Ben. A conclusão parece lógica: o riquinho, que sempre fez o que quis, é um psicopata que queimou Hae-mi. Mas nós nunca chegamos a ter a confirmação disso, apesar do desfecho orquestrado por Jong-su dar a sentença ao suposto serial killer.

Afinal, será que Hae-mi não teria desaparecido por conta própria? O filme trabalha a construção de uma personagem impulsiva que poderia sim ter decidido vazar dali. Os objetos colecionados por Ben podem ser apenas souvenires surrupiados das ex-namoradas, não confirma que ele tinha matado as garotas. O fato de Jong-su nunca ter encontrado a suposta estufa incendiada por Ben também não é uma pista concreta, talvez ele só não tenha procurado direito. Por mais que tudo leve a uma conclusão, não dá pra afirmar 100% que as coisas se desenrolaram deste modo, até porque somos guiados pelo viés do nosso herói camponês que, sabemos, cultivava antipatia por Ben desde que o conheceu. E se numa realidade alternativa do mundo invertido o próprio Jong-su queimou Hae-mi? Nunca saberemos.

Outras pontas deixadas soltas propositalmente na história ajudam a embasar essa teoria de que se conclui o que não se vê. Um exemplo é o mistério do gato de Hae-mi, que Jong-su alimentou durante a viagem dela à África, embora nunca tivesse visto o bicho. Aquele gato que aparece no apartamento de Ben quase no final do filme também não prova nada, o gato em momento algum disse que era de Hae-mi.

O poço que Hae-mi alega ter caído durante a infância, num episódio que fortaleceu a amizade com Jong-su, é outra coisa que pode ou não ser verdade. Ele não se lembra do episódio e aparentemente o tal poço nem existia. Até que ponto Hae-mi falava a verdade? Tá aí mais uma coisa que a gente nunca vai saber.

[fim dos spoilers]

 

O roteiro complexo e cheio de meias-verdades (ou meias-mentiras), baseado em um conto de Haruki Murakami, é daqueles que vai te deixar fisgado talvez não durante as quase 2h30 de filme, mas pelos dias seguintes. Por isso, não tire nenhuma conclusão sobre Em chamas logo depois de assisti-lo.

O que podemos notar logo de cara como algo realmente bem trabalhado é a fotografia do filme, principalmente no ambiente rural, com tomadas de pôr-do-sol e cores quentes com silhuetas em contraluz. Outro ponto forte é a interpretação de Jong-seo Jun, que imprime uma Hae-mi extremamente complexa, embora aparente ser apenas mais uma menina ingênua e sonhadora. Ela é enigmática sem se esforçar para isso.

Embora ainda tenha um ritmo um tanto arrastado, Em chamas é um daqueles filmes que vai te fazer pensar em todas as possibilidades sem nunca chegar a uma conclusão. É um caso em que você vira espectador e detetive de uma história sem nunca conseguir chegar a um veredito.

Nota:


 
Gosta de filmes coreanos? Então confira o nosso especial sobre a Trilogia da Vingança.
 

Imagens: Pine House Film


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