Margot Robbie em Eu, Tonya
Eu, Tonya | Patinando contra a corrente do Oscar
14/02/2018
Com amor, Van Gogh
Com amor, Van Gogh | Uma carta de amor para os fãs de arte
20/02/2018

Mudbound | A lama de uma sociedade que se recusa a evoluir

Mudbound


 

Todo ano o Oscar esnoba algumas produções sem que a gente consiga entender o porquê. Neste ano um dos que faz parte desta triste lista é Mudbound: Lágrimas sobre o Mississippi, um drama de época que já está entre os melhores filmes já feitos pela Netflix.

A história foca na trajetória de duas famílias: os McAllans e os Jacksons, que viviam na área rural do Mississippi na primeira metade da década de 1940, ou seja, ali pela época da Segunda Guerra Mundial. Apesar de morarem próximas, estas famílias possuem um grande abismo entre elas: os McAllans são brancos e os Jacksons são negros. Apesar de já terem se passado décadas do fim da escravidão a gente sabe que a conquista dos direitos civis pelos negros só foi se dar umas duas décadas depois. E quando se pensa em áreas rurais sulistas o atraso é ainda maior.

Para pagarem o seu aluguel, os Jacksons trabalham na fazenda dos McAllans, mas a dinâmica deles é muito mais de servidão do que de emprego. Isso inclui os McAllans chamarem os Jacksons quando bem entenderem, mesmo quando eles estiverem visivelmente machucados ou precisarem passar dias fora de casa. Mas atenção: os McAllans, com uma exceção, não são pessoas que fazem isso por que são do mal. Isso é o que eles conheciam e o que era considerado “normal” na época, infelizmente. A gente sabe que não é certo, mas eles não.

Os pontos em comum das duas famílias começam a surgir entre as mulheres: Laura (Carey Mulligan) e Florence (Mary J. Blidge). Elas começam e se entender quando percebem suas afinidades pela condição que as mulheres também enfrentavam na época. Isto acontece na primeira metade do filme, que foca muito mais na contextualização e no desenvolvimento destes personagens. É a parte mais arrastada e familiar, algo que já vimos ser melhor executado em A Cor Púrpura, por exemplo.

 


 

Ainda assim, o diferencial de Mudbound é não cair na polarização de que todos os negros são bons e todos os brancos são maus. A história é contada pelos dois lados e é aí que o negócio fica interessante. Nem o marido de Laura, Henry (Jason Clarke), é aquele típico caipirão grosso que bate na mulher. Aliás, ele não é nem bom nem ruim e a Laura só topou casar com ele mesmo pra fugir da condição de solteirona. Quem tem a alma mais podre aqui é Pappy (Jonathan Banks), pai de Henry. Esse não respeita mulher e muito menos negros. Mesmo atuando quase que em segundo plano na história, a gente percebe que o homem é uma bomba-relógio e que em algum momento vai dar ruim.

Depois da primeira hora de filme é que a história passa a ficar realmente interessante. Com o fim da guerra, o filho mais velho de Hap (Rob Morgan) e Florence, Ronsel (Jason Mitchell), retorna para casa. O mesmo acontece com o charmoso irmão mais novo de Henry, Jamie (Garrett Hedlung).

Mudbound

Aqui o filme entra em um território pouco explorado no cinema: a frustração do retorno de soldados que, após verem os horrores da guerra, percebem o mesmo tipo de ódio permanecer nos lugares onde eles moram. Claro que a adaptação é muito mais difícil para Ronsel, que voltou de uma Europa onde a cor da pele já não era um problema como ainda era nos Estados Unidos. Isso inclui não poder sair pela porta da frente das lojas e nem pegar carona na cabine de uma caminhonete, tem que ser na caçamba mesmo, pra citar só dois exemplos.

Esta frustração compartilhada entre Ronsel e Jamie é o que cimenta a amizade entre os dois. Mas até isso é um problema para eles, já que aparentemente amizades entre negros e brancos ainda não foram inventadas na época. Pra isso, eles têm que recorrer quase que a um “Brokeback Mountain de bros”: eles saem para beber e conversar escondidos e até quando Jamie dá carona para Ronsel ele tem que se esconder caso alguém possa vê-lo na cabine. Lembra muito um relacionamento proibido, como um caso extraconjugal e isso é bem proposital. Afinal, que mundo é esse em que pessoas não podem ser amigas de quem elas querem, não é mesmo?

Mudbound

Não vou entrar em detalhes sobre o desfecho da história, mas acontecem coisas bem fortes e bem revoltantes. E o mais triste é saber que ainda nos dias de hoje existem pessoas que apoiam este tipo de atrocidade. O recurso de mostrar uma cena do final na introdução do filme para só depois explicar o contexto é extremamente sagaz e ao mesmo tempo devastador.

O roteiro corre o risco de parecer sem foco ao contar a história do ponto de vista de diversos personagens, mas para mim foi isso o que tornou o filme interessante e diferente dos demais do gênero. É muito interessante perceber onde cada personagem começou e terminou a jornada e como eles passaram a enxergar as coisas. Não é à toa que está indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado.

Outro ponto fortíssimo é a fotografia amarronzada e com um aspecto propositalmente sujo, dirigida por Rachel Morrison (primeira mulher na história indicada nesta categoria). Apenas com o visual a gente já sente o peso da lama não apenas da fazenda, mas daquela que corrompe uma sociedade que se recusa a evoluir.

Fotografia de Mudbound

Aliás, o filme também é dirigido por uma mulher. Dee Rees tem a difícil tarefa de contar diversas histórias e fazer sentido de tudo isso sem perder o seu objetivo. Ela não ser indicada nesta categoria é uma das coisas que simplesmente não faz sentido.

Em termos de atuação, Mary J. Blidge é a única indicada. Ela entrega uma Florence que se expressa mais pelo que ela não diz. É uma bela performance mas não considero uma das mais fortes do ano e nem do próprio filme. Jason Mitchell e Jonathan Banks, por exemplo, tiveram um desempenho melhor na tela.

Mary J. Blidge e Carey Mulligan em Mudbound

O filme ainda é indicado na categoria de melhor canção original com “Mighy River”, da própria Mary J. Blidge. Apesar de combinar bem com o tom do filme, é aquela canção gospel que a gente meio que já ouviu em outros filmes. Não será nenhuma injustiça não levar nesta categoria.

Embora seja uma produção da Netflix, o filme precisa ser exibido nos cinemas para poder concorrer ao Oscar e é por isso que ele ainda não pipocou no catálogo. Mas acredito que passadas as premiações isso não demore a acontecer. Quando estrear, assista! Não é todo dia que a gente vê um filme tão bom feito por eles.

Nota:

Trailer de Mudbound: Lágrimas sobre o Mississippi

Imagens: Netflix

Veja todos os indicados ao Oscar 2018
 


Compartilhe: