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Leaving Neverland | Documentário mostra legado obscuro de Michael Jackson

Leaving Neverland

 

Leaving Neverland é o nome do documentário que trabalha de forma mais incisiva as denúncias de abuso sexual contra Michael Jackson. Com uma carreira cercada pelo bizarro, por especulações e processos que misteriosamente morreram na praia, ainda há muito o que se explorar, mesmo após 10 anos da morte do astro do pop.

O documentário dirigido por Dan Reed tem um objetivo muito claro: explorar em profundidade a relação de dois homens que, quando crianças sofreram abuso de Michael, além da repercussão que isso trouxe para as respectivas famílias. E eu não estou exagerando quando digo “profundidade”, com 4h de duração, os relatos das vítimas formam uma cronologia completa do final dos anos 1980 até os dias de hoje e não nos poupa dos detalhes que nunca mais nos deixarão ver o “Rei do Pop” da mesma forma.

Leaving Neverland

Vamos começar por Wade Robinson, um australiano que conheceu Michael aos 5 anos de idade quando ganhou um concurso de dança na sua cidade natal. Por causa da distância com os EUA, Wade só foi intensificar seu convívio com o cantor aos 7 anos, quando a família viajou para Los Angeles e foi convidada a se hospedar no Rancho Neverland. O que tinha começado como uma improvável amizade com uma das maiores celebridades da década evoluiu para uma relação de abuso por parte de Michael.

De forma semelhante, Jimmy Safechuck conheceu Michael aos 10 anos, quando gravou um comercial para a Pepsi com o astro. Diferentemente de Wade, Jimmy nem era muito fã de Michael Jackson, mas, da mesma forma, ele e a família foram atraídos pelo artista, que costumava ir dormir na casa deles (!). Não demorou muito para que a amizade de Michael e Jimmy também “evoluísse” para abuso sexual.

 


 

Como o documentário é bem extenso e detalhado, não vou me aprofundar muito na sinopse, mas sim na forma encontrada pelo diretor para conduzir a narrativa das duas vítimas. A primeira parte foca mais no “lado bom” destas amizades e em como Michael contribuiu para as carreiras dos meninos e também para as duas famílias. Afinal, o astro chegou até a comprar uma casa para os Safechuck e foi fundamental para que Wade despontasse como coreógrafo.

Mas engana-se quem pensa que a história é contada apenas pelas vítimas diretas de Jackson. As mães deles e os irmãos de Wade – além de uma breve participação da avó – colaboram com seus depoimentos, que mostram o quão surreal aqueles anos foram para as duas famílias e como tudo se passava. Os depoimentos são corroborados por imagens de arquivos deles com Michael, áudios enviados pelo cantor e mensagens de fax assinadas por ele.

Leaving Neverland

A segunda metade ganha tons mais obscuros quanto à personalidade de Michael e há muito mais material de apoio como matérias televisivas e entrevistas que nos ajudam a lembrar de como se desenrolaram as denúncias de abuso, que surgiram em 1993 e ressurgiram em 2003. Nos dois casos, Wade e Jimmy contam como eles foram persuadidos por Michael e seus advogados a deporem a favor do cantor, o que eles fizeram na época, até por não entenderem o quão errado era o que Michael Jackson fazia com eles.

 

Dá pra confiar nos depoimentos de Leaving Neverland?

 Muitos questionamentos são feitos quanto à veracidade e a pertinência de Leaving Neverland, principalmente por quem não assistiu ou não terminou de assistir ao documentário. É só ter uma visão mais sensível e até crítica para entender que todas estas perguntas são respondidas na segunda metade.

Como eu sou jornalista, confesso que eu senti falta de um pouco mais de variedade de fontes para dar mais ângulos destas histórias. Não para “me convencer” dos depoimentos de Wade, Jimmy e das respectivas famílias, mas justamente para não deixar qualquer margem de dúvida aos fãs mais céticos. É muito pessoal, é muito detalhe e é muito humilhante para ser tudo mentira. E as famílias também precisariam estar 100% a bordo para corroborar se fosse tudo mentira. Se for tudo encenação, pode separar os Oscars de atuação para essa galera no ano que vem.

Leaving Neverland

Outros questionamentos dizem respeito ao fato de já ter se passado uma década da morte do artista. “É muito fácil falar de alguém que não está aqui para se defender”, é uma das coisas que eu ouço. Michael pode até ter morrido, mas as suas vítimas não. Elas têm uma série de traumas para superar – se é que vão superar. E o fato de expor os depoimentos das mães mostra como este tipo de abuso não afeta apenas os meninos, mas toda a família, principalmente pelo sentimento de culpa dos pais que possivelmente nunca se perdoarão por terem deixado isso acontecer debaixo dos seus narizes.

Mais um argumento comum é o de que Jimmy e Wade querem apenas ganhar algo com isso, seja dinheiro, prejudicar o cantor ou exposição da mídia. Como já mencionei no parágrafo anterior, Michael está morto. A única coisa a ser prejudicada aqui é a imagem que ficará do artista, já que ele colheu todos os louros de sua carreira enquanto estava vivo. Da parte do dinheiro vamos pela mesma lógica, eles poderiam ter feito como a família de Jordy nos anos 1990, entrado com o processo e ganhado uma grana num acordo, o que não é o caso. Sobre exposição na mídia, Wade teria muito mais a perder do que a ganhar, já que ele é um renomado coreógrafo. E né? Quem vai querer ficar conhecido por ser vítima de abuso?

Leaving Neverland

Segundo os próprios depoentes, a decisão para vir a público foi resultado de um longo processo que envolveu duas etapas principais: 1) Entender que o que eles tinham com Michael Jackson era uma relação abusiva e não uma amizade entre um homem e uma criança. 2) Ter filhos foi o que os fez se dar conta da gravidade da situação pelas quais os dois tinham passado.

Além destes dois, acredito que movimentos como o #MeToo colaboraram para que vítimas, mesmo que de tanto tempo atrás, venham a público prestar e receber apoio. As pessoas estão num processo de ouvir mais a vítima e de dá-las o benefício da dúvida em vez de cegamente defender os ídolos. Claro que ainda tem muita gente que se mostra cética (afinal, pessoas mentem), mas como falei: é um processo.

 

Mas afinal, devemos boicotar Michael Jackson?

 
Esta é uma questão bem complexa e bem pessoal sobre o que fazer com o legado de alguém que se revelou ser uma pessoa tão tóxica para um grupo de meninos e de suas famílias. Na época do #MeToo eu li um artigo que dizia que “a partir do momento em que a obra de alguém é divulgada, ela passa a ser patrimônio do público e não mais do artista”. É um bom tipo de pensamento, até porque MJ não fez nada sozinho, há uma série de outros profissionais envolvidos no seu legado.

Boicote é o tipo de coisa que funciona quando a pessoa ainda consegue aprender uma lição com isso. É o caso de Kevin Spacey que foi excluído completamente de um filme que poderia lhe render uma indicação ao Oscar e perdeu seu maior trabalho na série House of Cards. Suas ações resultaram em perdas. O que Michael teria a perder depois de morto?

Leaving Neverland

 

Ao mesmo tempo, é complicado curtir 100% as músicas de Michael Jackson agora porque passamos a enxergá-lo de uma forma um pouco diferente. Nas denúncias anteriores não tínhamos acesso a tantos detalhes e o exército da defesa do cantor convenceu todo mundo de que se tratavam de oportunistas, o que é mais difícil de acreditar agora. Sem contar que nos venderam um Michael que é, ok, louco, bizarro e excêntrico (I mean… olha a cara dele!), mas que ainda conseguíamos ver como inofensivo, quase uma criança que não tinha muita noção de certo e errado. Em Leaving Neverland os depoimentos convencem de que ele sabia muito bem quão errado era o que ele fazia.

Do ponto de vista técnico, o documentário valoriza as experiências das vítimas e das famílias para contar uma história muito detalhada para duvidar, sempre apoiando tudo em imagens de arquivo e dando momentos para os depoentes e também o público respirar. Alguns podem até duvidar de sua veracidade, mas Leaving Neverland te deixa com a inevitável sensação de que há fumaça demais para não haver fogo nenhum.

Nota:

Imagens: HBO

Veja também: 12 Diretores abusivos (dentro e fora do set)

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