Ford vs Ferrari | Um carrão que não arranca

    Ford vs Ferrari

    Todos os anos o Oscar surpreende na sua lista de indicações com o que eu chamo de “cota de mediocridade”. Aquele filme que você simplesmente não entende o que está fazendo ali entre os melhores do ano. Em 2020 a vaga ficou com Ford vs Ferrari, o drama (?) sobre a competição entre as duas montadoras que dão nome ao filme.

    Inspirado em uma história e pessoas reais, o filme foca nas competições automobilísticas da década de 1960, culminando na Le Mans de 1966, em que a Ford finalmente venceu a escuderia italiana. Por que a gente deveria se importar com uma rivalidade de garotos administrando montadoras de carros há mais de 60 anos é um mistério que eu esperava que o filme respondesse, mas acabei saindo frustrada.

    Matt Damon e Christian Bale em Ford vs Ferrari

    Para tentar dar um rosto e alma a esta competitividade – em que todos sabemos que só interessa o dinheiro e a glória –, o filme foca em dois personagens centrais: Carroll Shelby (Matt Damon), um designer de carros, e o piloto/mecânico Ken Miles (Christian Bale). Eles são, supostamente, movidos pela paixão automobilística, enquanto os dirigentes da Ford estão mais preocupados em vender carros.

    Esta distinção de personagens e propósitos é feita de uma forma bem caricata, daquelas que você identifica nos filmes de ação mais acéfalos. Tem o frio empresário que está mais preocupado com o ego e com os resultados, os mocinhos que querem fazer a coisa certa, o diretor de Marketing que está com o dele na reta e acaba jogando para os dois lados e o inescrupuloso VP que só quer sabotar os mocinhos de uma forma tão caricata quanto as armadilhas da Corrida Maluca.

    Christian Bale e Matt Damon

    O roteiro é simples e conduzido por este tipo de personagens, o que torna um tanto incompreensível a duração de mais de 2h30. Tudo é previsivelmente orquestrado em relação aos desafios, às meias conquistas, às sabotagens e a quem são os verdadeiros vencedores no fim de tudo. Se você não viu este filme, é bem possível que já saiba como a coisa vai se desenrolar. E pensar que foram necessários três roteiristas pra entregar algo mais previsível que os resultados da F1 na época do Schumacher na Ferrari…

    Afinal, Ford vs Ferrari tem algo de bom?

    Nem tudo está perdido neste Velozes e Furiosos gourmet. Há algumas qualidades técnicas que podemos enumerar para entender algumas indicações ao Oscar deste ano. A parte de montagem e edição de som é bem competente, valorizando os roncos dos motores e, inclusive, distinguindo quando estamos falando de Ford e quando estamos falando de Ferrari.

    Christian Bale em Ford vs Ferrari

    A Le Mans, que é o ápice do filme, é também a melhor parte dele porque entrega o que a pessoa passou quase 2h esperando: corrida de carros! O roteiro de Ford vs Ferrari se sai melhor quando decide abandonar o drama para dar espaço à ação. Parece que os próprios roteiristas estavam de saco cheio de (tentar) construir personagens e só queriam ver borracha queimando no asfalto.

    Outro ponto de surpreendente competência aqui é a fotografia, que aposta em cores bem elétricas, típicas da época. O contraste do azul da Ford com o vermelho Ferrari é pincelado ao longo de todo o filme, criando uma atmosfera nostálgica e ao mesmo tempo eletrizante.

    Matt Damon na frente de um carrão

    As atuações são todas bem formulaicas, talvez com um pouco mais de dedicação de Christian Bale. Mas isso provavelmente porque ele simplesmente não consegue entregar uma atuação realmente ruim. O personagem não foi construído com a profundidade necessária para que a gente se identifique e torça por ele. Ok, entregaram uma família que ele aparentemente amava, o que deixa ainda mais confusa a motivação do personagem em arriscar a própria vida em algo tão perigoso quanto o automobilismo da década de 1960. Talvez ele não entendesse que estava se arriscando, já que um arrogante excesso de confiança acompanha o personagem no filme.

    E o Oscar, vem?

    Mesmo as qualidades técnicas não justificam o que Ford vs Ferrari está fazendo no que deveria ser a lista de melhores filmes do ano. Talvez seja lobby do Matt Damon, que é amigo de todo mundo e enfiou Perdido em Marte goela abaixo uns anos atrás, talvez seja um posicionamento pra lembrar que o Oscar ainda é um clube de meninos ou talvez os membros da Academia simplesmente estejam muito mal orientados sobre quais filmes assistir. Se dependesse de mim, a passagem deste filme pelo Oscar seria tão discreta quanto o motor de um híbrido.

    No fim das contas, Ford vs Ferrari lembra muito alguns carros franceses que apresentam um belo design, mas cujo motor simplesmente não entrega o que o motorista espera. Para os fãs de automobilismo, melhor ficar com as competições da vida real, que ainda têm mais drama e emoção do que este filme.

    Nota:

    Imagens: Merrick Morton – © 20th Century Fox

    Leia também: Todos os indicados ao Oscar 2020


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